dimanche 15 juin 2008

Cinema na cidade

A filha tem 15 anos e esta começando a se interessar por cinema, quer dizer, quer conhecer cinema. As referências, as marcas. Nesta ville-lumière, ela quer, logico, conhecer o cinema francês.

A primeira reaçao da mae é Urgh! Seu santo pai repetia rindo que a expressao "cinema americano" era um pleonasmo. E isso no momento em que o Cine-Arte UFF estava em todo o seu esplendor , quando a filha dele disputava um lugarzinho nas sessoes de meia-noite sempre cheias ...

A filha se impacienta com a reaçao infantil da mae e a obriga a voltar ao presente. Cinema na França é coisa muito séria, os apoios governamentais sao enormes. Industria cultural no sentido proprio da expressao. Que filmes ela TEM de ver?

- Seu avô dizia...

-Mae, você ja disse isso mil vezes, nao tem graça nenhuma...

- Filme francês é que nao tem graça nenhuma...

-Mae!

- Ok, Ok: A bout de souffle, de Godard. Um filme sobre um rapaz que foge da policia e é traido pela namorada...

- Mae, você esta com estrelas nos olhos! Esse filme tem de ser bom!

(Desfilam pelos olhos da mae as surpresas da paixao que mata e da covardia. Mas como assim? E as caretinhas de Belmondo morrendo na Praia de Icarai, nao, nos Champs Elysées. Acossado. )

- Mae, como é que você diz que os franceses nao sabem fazer filme e você esta com essa cara... se eu fizesse um unico filme que fizesse isso com as pessoas... Godard deve ser um gênio...

(O café no pé-sujo ao lado depois da sessao so pra esticar a noite. Nao havia onde ir depois. Tudo fechado. Uma cidade que dormia.)

- La vie devant soi, de Moshé Mizrahi. A judia Madame Rosa, alias Simone Signoret, e Momô, o garoto que até os sete anos nao sabia que era arabe porque ainda nao tinha sido insultado... (Insultado por ser arabe? Na patria da fraternidade? No super novo Cinema 1 da Moreira César isso parecia estranho. ) Momô que se vê obrigado a abandonar seu cachorro querido e compreende de repente por que sua mae o abandonara...

-Mas você que nao gosta de filme triste...

- Mon oncle d'Amérique, de Alain Resnais, ai, acho que estou dando um tiro no pé te citando esse ai...

-...?

- E um elogio da desobediência, um filme meio complicado pruma mae recomendar... um nao à piedade, um "nao confie em ninguém" ... sei la. Mas é preciso ver.

(Saimos mudos do Cinema 1 de Copacabana, meu amigo Clovis Levi e eu. Niteroi vista do outro lado parecia dormir mais profundamente ainda.)

A filha é estudiosa, esta anotando num caderninho.

- E Les Guichets du Louvre, de Michel Mitrani, sobre a rafle du Vel d'Hiv, a prisao dos judeus parisienses no verao de 42 pela policia francesa.

- Mamae, você esta de provocaçao!

- Nao estou nao! E você nao sabe do mais interessante, o Cine Arte UFF projetou esse filme no ano de sua produçao, com a presença do diretor. O filme tinha sido proibido na França, por atentado à imagem francesa durante a Ocupaçao. Até muito pouco tempo atras a questao da colaboraçao francesa com os alemaes era mito por aqui. Oficialmente aqui so tinha "resistente".

- Mae, nao começa!

- Tô terminando. Imagine que foi a primeira vez que ouvi falar nisso, eu e muito boa companhia... pra nos - e olha que éramos informadinhos... pra nos os inimigos dos judeus eram so os alemaes e assim mesmo nao todos, so os poucos nazistas, poucos mas que tinham tomado o Estado...

-Ai ai, la vem você...

- Mas o mais importante do filme nao é isso. E mostrar como os judeus estavam enganados com a França, com sua propria capacidade de resistência, com sua propria força. E um filme a favor do individuo diante do grupo, da pra entender?

- Hum... mais um pra fechar a lista:

- Pra fechar a lista? Entao la vai o mais belo filme do mundo, de antes, durante e depois. O classico dos classicos. Pra se ver uma vez e lembrar pra sempre ... Tantos temas ... Shakeaspeare francês...

-Nao decola, mae!!!

- Les enfants du paradis, de Marcel Carné.

( Garance sorri e lembra da mae. A risada de sua mae: "Quando minha mae ria, tudo ria. E a herança que recebi dela. Seu riso". Que melhor herança pode deixar uma mae a sua filha? )

- Fala de quê, mamae?

- E um filme sobre a transmissao, de mae pra filha...

6 commentaires:

Clara Lopez a dit…

Nossa, muito bom o post! Não lembro de metade desses filmes, acho que não vi mesmo vários, eu era meio alienadinha nessa época :)
Muito bom, de novo!
beijo,
clara lopez

Anonyme a dit…

Mas se bergman era dessa época, eu via os filmes com devoção, acho que sempre fui uma pessoa trágica...:)
bjo,
vera queiroz

Eliana BR a dit…

Querida Clara, querida Vera,

Obrigada pelos comentarios.
Clarita, você nunca foi "alienadinha", muito pelo contrario, se você nao viu esses filmes nessa época é porque você nao era de Niteroi...(rsrs), onde se tinha de inventar mesmo...quem viveu, viu..
Vera querida, sabe que talvez você tenha encontrado mesmo uma auto-definiçao? Um personagem de intensidade bergmaniana.
Bises,
Eliana

Edwiges a dit…

Olá,Eliana!

Ana me passou a dica do blog e aqui estou curtindo a leitura dos seus posts. Sobre o "Les Enfants du Paradis", uau, que lembrança eterna! Vi o filme em duas partes no então Cineclube Estação Botafogo, anos 80... Acho que já contei sobre isso naquele encontro super agradável no apartamento da Pasquale e do João. Quanto à linda Maria, imagino sua emoção de mãe apontando caminhos para as inúmeras descobertas que ela ainda fará. Um beijo e até breve aqui no Rio.

Eliana BR a dit…

Querida Edwiges,
Obrigadissima pela visita.
Desta vez vamos com certeza nos encontrar no Rio.
Um beijo,
Eliana

Vera Bungarten a dit…

Que bom que voce lembrou de tantos filmes-marca dentro da filmografia francesa! Lembrei ainda de "Mouchette", do Robert Bresson, que me marcou muito.

Mas à galeria de monstros sagrados do cinema francês, com Godard à frente, eu sugiro acrescentar ainda o meu querido François Truffaut, com o seu olhar amoroso e humano.
Não esquecendo que ele escreveu, junto com Godard, o roteiro do “Acossado” (A bout de souffle)
A lista dos filmes dele que mais amo começa com LES QUATRE-CENTS COUPS (Os incompreendidos), que levou ao desenvolvimento do personagem de Antoine Doinel.
Interpretado pelo mesmo ator, Jean-Pierre Léaud, teve continuidade no curta ANTOINE ET COLETTE, e deu origem à trilogia:
L’AMOUR À VINGT ANS, BAISERS VOLÉS e DOMICILE CONJUGAL

O que dizer entao do sensível e poético L’ARGENT DE POCHE, lindo !

E seguem-se FAHRENHEIT 451, JULES E JIM, LES DEUX ANGLAISES E LE CONTINENT, LE DERNIER MÉTRO, LA FEMME D’À CÔTÉ.

E finalmente, LA NUIT AMERICAINE, aquele filme particular, especialmente amado pelos que estão envolvidos com o fazer cinema, esse mundo doido e mágico, um pouco incompreensível aos outros.

Adorei o blog! Voce aceitaria uma contribuição de fotos? como se faz?

um beijo
Vera

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Interior de Saint Julien le Pauvre

Interior de Saint Julien le Pauvre

Marion e a igreja de Saint Julien le Pauvre

Marion e a igreja de Saint Julien le Pauvre

Barcelona

Barcelona

Barcelona

Barcelona

Museu da Catalunha

Museu da Catalunha

A arvore mais velha de Paris.Jardim de Saint Julien le Pauvre

A arvore mais velha de Paris.Jardim de Saint Julien le Pauvre

Jardim da igreja de Saint Julien le Pauvre

Jardim da igreja de Saint Julien le Pauvre

Igreja da Madeleine

Igreja da Madeleine

Das escadas da Madeleine. Ao fundo, a place Vendôme

Das escadas da Madeleine. Ao fundo, a place Vendôme

Barcelona- Gracia

Barcelona- Gracia

Rue de Bucci

Rue de Bucci

Barcelona

Barcelona

Charitas forever

Charitas forever
Foto de Elias Francioni

Passage Saint Andre des Arts

Passage Saint Andre des Arts

Cartão-postal

Cartão-postal
Foto de Vera Bungarten

Paris...

Paris...
Foto de Vera Bungarten

No centro do Louvre

No centro do Louvre
Foto de Vera Bungarten

Passages de Paris

Passages de Paris
Foto de Vera Bungarten

Livraria Shakeaspeare.Quartier Latin

Livraria Shakeaspeare.Quartier Latin
Foto de Ana Maria Lucena

Quartier Latin

Quartier Latin
50 anos de Ionesco

Tonico Pereira. Teatro da FAAP

Tonico Pereira. Teatro da FAAP

Le Petit Pont e l'Hôtel de Police

Le Petit Pont e l'Hôtel de Police

Feliz Ano Novo ( foto de Patrick Corneau)

Feliz Ano Novo ( foto de Patrick Corneau)
Dança, a esperança equilibrista porque o show de todo artista tem de continuar.

Ilha da Boa Viagem

Ilha da Boa Viagem
Foto de Elias Francioni

Rue de la Huchette. Quartier Latin

Rue de la Huchette. Quartier Latin

Xando Graça

Xando Graça

Pont Saint Michel

Pont Saint Michel

Les Invalides

Les Invalides
Foto de Vera Bungarten

A dama de ferro

A dama de ferro
foto de Ana Lucena

A côté du Beaubourg

A côté du Beaubourg
Foto de Vera Bungarten

Chez Procope

Chez Procope

Igreja de Saint Séverin

Igreja de Saint Séverin

Angulo da igreja de Saint Séverin. Quartier Latin

Angulo da igreja de Saint Séverin. Quartier Latin
(foto Ana Maria Lucena)

Detalhe da Catedral de Notre Dame

Detalhe da Catedral de Notre Dame

Bassin Igor Stravinsk (ao lado do Beaubourg)

Bassin Igor Stravinsk (ao lado do Beaubourg)
Foto de Vera Bungarten

Liceu Henri IV

Liceu Henri IV
foto de Maria do Rosario

Liceu Henri IV. Ao fundo, o Panthéon

Liceu Henri IV. Ao fundo, o Panthéon
foto de Maria do Rosario

Liceu Henri IV

Liceu Henri IV
foto de Maria do Rosario

Liceu Henri IV

Liceu Henri IV
foto de Maria do Rosario

Jardin du Luxembourg

Jardin du Luxembourg

Espetaculo de mimica

Espetaculo de mimica
Jardin du Luxembourg

Rive Gauche

Rive Gauche

Barcelona Arco do Triunfo

Barcelona Arco do Triunfo

Museu de Zoologia e Historia Natural

Museu de Zoologia e Historia Natural

Jardin du Luxembourg

Jardin du Luxembourg
O despertar da primavera