dimanche 6 décembre 2009

Cartazes publicitarios em Paris




E olhai o que mostram as paredes de Paris: paredes do metro, de bares, de restaurantes. Todos pedem solidariedade e tolerância. O primeiro é de uma organizaçao de benévolos que se comprometem a dar um telefonema por semana a idosos sem familia, de modo a quebrar seu isolamento; o segundo lembra aos frequentadores de restaurantes e bares que, enquanto uns se divertem, outros têm de dormir e é preciso portanto moderaçao no barulho; o terceiro é um protesto bem-humorado contra a homofobia feminina. Diz ele: "Essa é uma garota que gosta de garotas. Mas essa garota que gosta de garotas nao gosta de garotas que nao gostam de garotas que gostam de garotas. Complicada essa frase, nao? Menos, no entanto, que sua vida de universitaria homossexual".

samedi 5 décembre 2009

Natal forever





E voilà que é de novo Natal!

jeudi 5 novembre 2009

Como um holograma partido

Le Monde publica hoje uma reconstituiçao do discurso feito de improviso por Claude Lévi-Strauss por ocasiao de uma cerimônia no Collège de France comemorativa de seus 90 anos, em 25 de janeiro de 1999. O texto foi reconstituido de memoria por Roger-Pol Droit e aprovado pelo proprio Lévi-Strauss.

Trata-se de uma reflexao sobre a relaçao entre o homem e tempo nao se poderia pensar mais aguda. Voilà:

" Montaigne diz que a velhice nos diminui cada dia e vai nos consumindo de tal forma que, quando a morte sobrevém,nao leva mais que um quarto de homem ou um meio homem. Montaigne morreu com 59 anos e nao podia sem duvida ter idéia da extrema velhice na qual me encontro hoje. Nesta tao avançada idade que nunca pensei atingir e que constitui uma das mais curiosas surpresas de minha existência, tenho o sentimento de ser como um holograma partido. Esse holograma nao possui mais sua unidade completa e entretanto, como em todo holograma, cadaparte restante conserva uma imagem e uma representaçao completa do todo. Assim, hoje para mim ha um eu real, que nao é mais que um quarto ou a metade de um homem, e um eu virtual, que conserva ainda viva uma idéia do todo. O eu virtual concebe um projeto de livro, começa a organizar seus capitulos e diz ao eu real: "Cabe a você continuar". E o eu real, que nao pode mais, diz ao eu virtual: " Isso é problema seu. E so você que vê a totalidade."

Minha vida se desenvolve, atualmente, através desse dialogo muito estranho. Eu lhes sou muito reconhecido por ter por alguns instantes, graças a sua presença e a sua amizade, feito cessar esse dialogo, permitindo por um momento que esses dois eus coincidam de novo.

Sei bem que o eu real continua a fundir-se até sua dissoluçao ultima mas lhes sou grato por me terem estendido a mao, me dando assim, por um instante, o sentimento de que as coisas se passam diferentemente."


Dificil melhor sintese do efeito da passagem do tempo, da perspectiva da morte e do valor do amor, da amizade e, em ultima instância, da linguagem. Nao?

mercredi 30 septembre 2009

Lavagem da Madeleine

http://www.redetv.com.br/portal/video.aspx?52,15,57967

O baterista lourinho é Tavinho, filho dos amigos Joao de Oliveira e Pascale.

mardi 29 septembre 2009

O mal-estar da civilizaçao

Vinte e quatro empregados da France Telecom - a empresa publica de telefonia da França - ja se suicidaram desde fevereiro de 2008, quer dizer, um ano e meio mais ou menos. Por causa de condiçoes de trabalho estressantes e como consequência de anuncios de demissao. Isso mostra bem como o trabalho formal é importante por aqui. Ja pensou se essa perspectiva se exporta pro Brasil?

mercredi 23 septembre 2009

Ecologia e capitalismo - AutoLib'

Sempre pensei os movimentos ecologicos como coisa de rico ou ao menos de gente sem preocupaçoes financeiras imediatas. Bobagem minha, claro, desinformaçao forte. Mea culpa. Na verdade, o principio ecologico é fundamentalmente contra a acumulaçao e recupera a verdade basica - somos transitorios. E so pode se generalizar acoplado à pratica da solidariedade - arruma-se o coletivo e se pode relaxar quanto ao individual.
Utopia de "soixante-huitards"? Nem tanto. Vejam so, depois do Vélib' em Paris -a pratica do aluguel bem barato de bicicletas pela prefeitura de Paris (Mairie) -, vem ai o Auto'Lib - aluguel de carros elétricos também pelo Estado. A publicaçao do edital de concorrência é iminente e as primeiras das mil e quatrocentas estaçoes previstas - em Paris e nos suburbios limitrofes - deverao ser inauguradas em 2010. O plano é pôr quatro mil veiculos à disposiçao dos parisienses e seus vizinhos proximos.
Sera o fim dos problemas de estacionamento e, quem sabe, do status do carrao.

dimanche 20 septembre 2009

Peter Weiss na Laura Alvim. Entrada franca

Vi "O Interrogatorio" nos anos 70, na montagem de Celso Nunes, no Glaucio Gil. E impressionante. Passo entao o convite de Xando Graça pra nova montagem, de Eduardo Wotzik.

Amigos:

Nos próximos dias 25 e 26 deste mês estarei, juntamente com cerca de 20 atores, apresentando a peça "O Interrogatório", do dramaturgo alemão Peter Weiss, que retrata a fase de instrução dos tribunais de guerra sobre os crimes do nazismo, que tiveram lugar em Berlim nos anos 60.

O evento que terá duração de 24 horas ininterruptas é dirigido pelo Eduardo Wotzik e tem o objetivo de ser um clamor artístico pela paz no mundo. Começará com o toque da shofar no anoitecer de sexta-feira, anunciando o início do shabbat (cerca de 18:00) e terminará mais ou menos na mesma hora no sábado, anunciando o fim do shabbat.

Será na Casa de Cultura Laura Alvim. A entrada será franca, com uma urna colocada a saída do teatro para doações espontâneas, vizando a viabilização de novas apresentações.
Maiores detalhes sobre a história podem ser vistos no blog http://ointerrogatorio.blogspot.com

Um Abraço,

Xando Graça

vendredi 18 septembre 2009

Falar português

"Desesperadamente/canto em português" (Belchior)
Parece incrivel mas em Paris e creio que posso dizer, na França, nem todos os filhos de portugueses ou de brasileiros sao bilingues ou ao menos falam português fluentemente. Os filhos de maes brasileiras e pais franceses entao, no maximo falam um português lingua estrangeira bem aprendido. Quando o brasileiro é o pai a coisa melhora. Mas essa nao é nunca a lingua da casa, que é sempre o francês. Ha exceçoes, claro, mas a regra é essa.
Natural? Mais ou menos. No Brasil conheci uma professora do Brasas, brasileira, filha de pai e mae braileiros. Uma vez lhe perguntei como tinha ela conseguido um tal nivel de inglês. Respondeu-me que a familia morara um ano nos Estados Unidos e, ao voltar, tinha decidido que o inglês seria a lingua da casa, de modo a que as crianças nao perdessem o nivel linguistico ja adquirido. Brilhante, nao?
Na contracorrente, os filhos de um português que eu conheço, chefe do departamento de português de uma das principais universidades francesas, nao falam português. Como sera que se comunicam com os parentes em Portugal? E a futura nora de uma amiga, filha de portugueses, cuja mae nao quis que ela aprendesse o português para nao ser confundida com uma " concierge" ( porteira)?
Entre os brasileiros a negaçao da lingua é mais sutil, claro. Uma vez, num aviao ainda da Varig, conheci uma senhora que voltava de Paris. Nessa época eu viajava com crianças pequenas e tinha de fazer amizade com todo mundo em volta. Essa senhora devia ser mae de alguém da companhia pois toda a tripulaçao se esmerava em agrada-la nao como a uma autoridade mas como a um parente de um amigo. Tinha ela conseguido um up grade, como nos ( o nosso tinha sido conseguido graças a um trabalho de meu marido para a Varig) e viajavamos todos muito confortavelmente na executiva. Pois bem, essa senhora se recusava a falar português, dizendo que aquela era sua primeira volta ao Brasil depois de muito tempo na França e que "esquecera" a lingua...
Ha ainda os que se comprazem com o sotaque francês de seus filhos no português ou a traduçao direta de expressoes francesas para o português que eles conseguem falar. Ha os que nao insistem para que os filhos aprendam a lingua - " Ele nao quer..."
Fico chocada. Claro que, por ser professora de português, um tal comportamento atenta contra meu mercado de trabalho. Mas nao é so isso. Negar a lingua é negar uma civilizaçao, como bem sabem os franceses, tao ciosos dos minimos traços distintivos do francês.
Pra terminar, la cerise sur le gâteau: um debate sobre literatura brasileira na prestigiosa Maison de l'Amérique Latine, boulevard Saint-Germain. A conferencista fala sobre Clarice e menciona que se tratava de alguém viajado, que fora mulher de um diplomata e que falava varias linguas. Abre-se o debate e a primeira questao que vem da platéia é: -por que uma pessoa tao viajada e tao culta teria escolhido o português para escrever sua obra? Pano rapido.

mercredi 16 septembre 2009

Literatura e as verdades da vida

No meio de altos problemas, tem gente que ouve musica, interiormente. Eu ouço o que ja li. Ou o que ouvi no radio ou vi no cinema. Sao textos que me vêm à memoria como um "prompteur" prum apresentador de televisao. Nao escolho, eles me aparecem.

Sobre a questao da morte e da dor, por exemplo. Estou andando pela rua e de repente ouço um capitulo do "Cavaleiro da Noite": os inimigos caem num covil de serpentes. Esta tudo escuro e eles de inicio nao compreendem onde estao. Começam entao a sentir as primeiras picadas. Nao sentem ainda dor mas sabem que vao sentir. Ai chega o heroi do momento, que é um dos companheiros do propriamente dito Cavaleiro da Noite, André, o gigante. Com sua alta estatura ele pode se equilibrar sobre as pedras do buraco. E ele tem um archote. As cobras, como ficamos sabendo, temem o fogo e se afastam. Os inimigos pedem a André que atire neles antes que o veneno das serpentes os faça sofrer. André, que nao guarda ressentimentos, da um tiro em cada um deles, com o beneplacito da voz autoral. Alias, em qualquer polar e em qualquer faroeste se vê a morte como saida limpa para uma situaçao de dor. Também no fim de "Homens e ratos", de Steinbeck, da-se a mesma coisa: o heroi , carinhosamente da um tiro na nuca do amigo-irmao, de modo a nao deixa-lo ser preso pelo assassinato que cometera involuntariamente.

Sobre sexo e amor: havia quando eu era garota uma revista chamada "Querida", que publicava contos evidentemente de amor. Revista cuja leitura era, evidentemente, proibida às meninas em flor. Mas que eu lia na casa de uma tia, por ocasiao dos almoços familiares. Eram contos americanos ou entao feitos à maneira de. As historias se passavam em pequenas cidades americanas, tao diferentes das brasileiras que às vezes os detalhes sociais chamavam mais a atençao da leitora que a trama erotico-amorosa. Eram garçonetes e mecânicos, operarios de fabricas e pequenos comerciarios que pareciam todos viver tao bem, em casas com tantos eletrodomésticos e roupas e sobretudo carros, com tanto tempo livre e dinheiro para passeios e cinemas e reflexoes que a jovem leitora se perguntava se estava compreendendo bem o que era uma garçonete ou um mecânico. Havia também o problema de com quem deixar os filhos e a leitora se perguntava onde estavam as familias daqueles individuos, onde estavam as avos e tias e primas solteiras, que em Niteroi, nessa época, se encarregavam de resolver esse tipo de problema. Nessas cidades as pobres maes eram obrigadas a deixar seus filhos com velhos vizinhos tarados, que abusavam das crianças que so a muito custo conseguiam se queixar às maes.

Mas de uma historia eu guardei um trecho muito interessante. Tratava-se da decisao da heroina de ter a primeira relaçao sexual com o namorado. As escondidas de sua mae, naturalmente. O namorado, que é mecanico - a revista tinha decididamente um fraco pelos mecânicos -, vai todos os dias depois do trabalho direto pra casa da namorada. Esta lhe prepara o jantar enquanto sua mae esta no trabalho. Bem, nesse dia, ela descreve o aspecto cansado do rapaz ao chegar. Ele lava o rosto e as maos - os gringos sao limpos - e ela lhe serve a comida. E vai observando os sinais de fadiga desaparecerem do rosto dele. E ai, diz ela, " eu soube que certo ou errado a hora tinha chegado." Claro que nao posso jurar mas acho que as palavras sao mesmo essas. Que ficaram pregadas por dentro na minha cabeça. Amor como sexo, como explica Rita Lee. Depois fui compreendendo que na composiçao do amor havia um outro elemento que nao era visivel a olho nu: faltava "a historinha". Mas essa é uma outra historia.

samedi 27 juin 2009

A marcha do Orgulho GLBT


27 de junho de 2009. O desfile saiu de Montparnasse, passou por Saint Germain e foi até a praça da Bastilha. As fotos sao do boulevard Saint Germain, entre o boulevard de Saint Michel e a praça Maubert.

( Clique sobre as imagens para aumenta-las)














































mercredi 24 juin 2009

A valsa dos patinadores






(clique sobre as imagens para aumenta-las)
Praça Maubert, 5ème arrondisement.


A policia protege os patinadores.



lundi 22 juin 2009

Adriana Lunardi

Conheci primeiro a autora, num programa de difusao de literatura da América Latina na França. Ela leu um conto de seu livro Vésperas, entao recém-lançado. Foi um choque. Comprei imediatamente o livro que li num fôlego so. As vésperas do livro sao as ultimas horas de escritoras. Como as de Colette, narradas por uma de suas personagens.
Um livro que tem o que dizer, que nao é so nem principalmente discurso. Como se as ultimas horas de cada vida condensassem toda a vida. Um livro que parece, à leitura, estar escrito a mao, tamanha é a delicadeza do discurso. Um livro como gosto - do tipo que continuamos a ler depois de terminado, que começa depois do ponto final.

mercredi 3 juin 2009

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

O filho chega em casa com um hematoma no rosto e uma grande escoriação no cotovelo. Que foi? Que houve? Ele esta ainda um pouco perturbado mas é com grande calma que conta à familia aflita o que acaba de acontecer:
- Fui atacado por um "horrible raquetteur" (Ele tenta dar um tom cômico a seu relato. Os "raquetteurs" são jovens que assaltam jovens vindos do colégio ou de um passeio e geralmente atacam em bandos).
-O quê? Como? Onde?
- Agora ha pouco, em frente à L'Heure Joyeuse (a biblioteca infanto-juvenil a dois passos de casa) quando eu estava indo a casa de Julien.
- O quê? Ele levou o quê?
- Pois é. Não tinha ninguém na rua, então ele chegou e me disse pra eu passar o celular. E eu disse que não tenho celular. Ai ele me disse pra eu entregar o MP4. E eu tive de dizer que não tenho MP4. Então ele me disse pra eu dar o dinheiro. E eu so tinha 25 centavos. Então ele ficou nervoso e me deu um soco na cara. Ai ele deu outro mas errou. Eu aproveitei e sai correndo pra rue Saint Jacques, onde havia gente. E ele correu pro outro lado.
A mãe quer ir imediatamente ao Comissariado registrar a queixa e fazer o retrato falado do agressor. Mas o filho esta cansado e quer ficar em casa.
A filha ri: o irmão irrita até os raquetteurs.
E ai intervém o pai: -Escuta, o cara te da um soco na cara e você sai correndo?
- Fugi bravamente, pai.
-Mas meu filho, você não tem 10 anos de judô?
- Mas pai, e se ele tivesse 11 de box tailandês?
- Meu filho, se eu chegasse em casa dizendo que tinha apanhado na rua apanharia de novo, de meu pai. Como é que você deixa alguém te dar um soco na cara?
- Eu não deixei, pai. Ele tinha uns 16 anos... Ô, pai, você é mesmo tijucano...
O pai , que por incrivel que pareça, tem uns 25 anos de yoga, nao pode deixar de rir. De fato, a época John Wayne passou. E, com a mãe relembra a triste historia do grande artista plastico que não suportou um soco na cara de um desconhecido e que, por isso, foi parar na cadeia por homicidio. As vezes, ser homem é exatamente saber suportar um soco na cara e bravamente fugir.

vendredi 8 mai 2009

Gente de Paris. 2


O penultimo post de Kovacs me deu vontade de apresentar a prata aqui de casa.


Ronaldo Graça é artista grafico. Faz publicidade, desenhos para publicidade, historias em quadrinhos e capas de livros. Atualmente é o capista de duas coleçoes de literatura popular, uma de Paris , outra de Abidjam, na Côte d'Ivoire (leio na Wikipédia que o governo da Costa do Marfim solicitou em 1985 à comunidade internacional que o pais fosse chamado sempre pelo nome em francês).


A coleçao de Paris chama-se "Brigade Mondaine", que é o antigo nome da divisao policial que trata "dos costumes" (repressao à droga, ao proxenetismo, etc). Sao historias erotico-policiais, escritas em linguagem simples e agil como o romance "noir" americano, num francês também simples. Vendem-se loucamente nas estaçoes de trem , em alguns quiosques de jornal e em grandes livrarias. Sao livros pra se ler rapidamente, numa viagem, por exemplo. E nao sao idiotas. Tratam de temas da atualidade: o amor homossexual, a mudança de sexo, a luta das moças pobres para subir na vida, etc e tal. Por incrivel que pareça, nem sempre o enfoque é conservador. Depende um pouco do escritor. Se o capista é um so, para garantir a identidade visual da coleçao, ha um batalhao de escritores, devidamente ocultos por pseudônimos. A identidade é dada pelo editor e dono da coleçao, o poderoso Gérard De Villiers, que aprova pessoalmente textos e esboços de capas.


A coleçao de Abidjan tem outro publico e outro interesse. Publicada por um braço da Hachete francesa, foi criada com uma subvençao estatal para estimular a leitura entre as mulheres. Poderia mesmo ser considerada um material paradidatico. Seu texto, também escrito por varios autores, é também simples e agil mas, apoiando-se nos valores tradicionais da sociedade - amor, casamento, filhos - deve estimular idéias novas tais como o trabalho feminino, a instruçao, o desejo de consumo, o desejo de viagens , etc. Vende também imensamente. Suas capas, feitas logicamente a partir dos temas dos livros, devem mostrar pessoas bonitas e valorizar o ambiente africano. Ha dois anos atras houve um seminario na nova Biblioteca de França a proposito da ultura africana e qual nao foi nossa agradavel surpresa quando soubemos que uma das comunicaçoes seria sobre a coleçao Adoras e que um de seus temas seria a fidelidade ou infidelidade das personagens de suas capas à cor real dos nativos da Côte d'Ivoire.


A arte do marido me fez entrar noutro universo ficcional e refletir mais sobre as concepçoes de arte e de literatura com que trabalhamos.

jeudi 7 mai 2009

Passagens de Paris

Gare de Lyon ( Paris)
Estaçoes sao lugares magicos (clique na foto para aumentar)

samedi 2 mai 2009

No 1° de maio


"Uma estranha loucura se apossa das classes trabalhadoras das nações em que reina a civilizaçao capitalista. Tal loucura provoca misérias individuais e sociais que, ha séculos, torturam a triste humanidade. Essa loucura é o amor ao trabalho, a paixão moribunda pelo trabalho, levada até o esgotamento das forças vitais do individuo e de sua progenitura. Em lugar de reagir contra essa aberraçao mental, os padres, os economistas, os moralistas, sacrossantificaram o trabalho. Homens cegos e limitados, quiseram ser mais sabios que seu Deus; homens fracos e despreziveis, quiseram reabilitar aquilo que seu Deus havia amaldiçoado. Eu, que não me professo cristão, econômico nem moral, quero julgar seu julgamento à luz do julgamento de seu Deus; quero julgar os sermões de sua moral religiosa, econômica, livre-pensadora a partir das pavorosas consequências do trabalho na sociedade capitalista.
Na sociedade capitalista, o trabalho é a causa de toda degenerescência intelectual, de toda deformação orgânica. Compare-se o puro-sangue dos haras de Rothschild, servido por uma criadagem de bimanos, ao pesado animal das fazendas normandas, que puxa o arado, puxa a carroça de estrume, recolhe a colheita. Observe-se o nobre selvagem que os missionarios do comércio e os comerciantes da religião ainda não corromperam com o cristianismo, a sifilis e o dogma do trabalho e observem-se em seguida nossos miseraveis servidores das maquinas."
Esses sao os dois primeiros paragrafos do primeiro capitulo de "O Direito à Preguiça", de Paul Lafargue (e traduçao minha), livro que conheci nos anos 80 por indicaçao de Imara Reis. Ha varias traduçoes em português. No site abaixo esta em versao integral, em francês. Tem de clicar no link e depois em "lancer une recherche":


Paul Lafargue casou-se com a filha caçula de Marx, Jenny Laura. Moraram em Asnières, um suburbio de Paris, onde ela, acostumada com o movimento da casa de seus pais em Londres, se entediava loucamente. Em 1911, ele com 69 e ela com 66 anos, fizeram um pacto de morte e se suicidaram, deixando uma carta na qual declaravam ter escolhido a morte antes da velhice.


Um ramo de muguet para todos nos!



mercredi 29 avril 2009

Com os pobres de Paris

Quando chegamos a Paris, em janeiro de 1991, nao havia pobres. Ou ao menos nao havia pobres visiveis. Nada de criança na rua, poucos mendigos, todos visivelmente destruidos pelo alcool, com seus rostos vermelhos, maos grossas e olhar embrutecido. Havia também alguns jovens drogados. Poucos, perdiam-se numa populaçao que parecia organizada e sem problemas sociais.
La se vao dezoito anos e a sociedade parisiense mudou diante de nossos olhos. Muito.
As estaçoes de trem sao um dos cenarios dessa miséria. De manha cedo, os felizes ocupantes de um emprego cruzam com toda uma populaçao à margem da sociedade do trabalho. Todo um lado da Gare de Lyon, por exemplo, tem seus bancos ocupados pelos mendigos que la dormem e que, acordados antes das 6 da manha pelos transeuntes, se esforçam por assumir a postura de quem esta de passagem. Dificil, dadas as sacas de plastico que carregam, caracteristicas, os olhos vermelhos de alcool, o desalinho, o olhar perdido. Na França o trabalho é honra e a exclusao do mercado é a morte social.
Ha os ciganos que so podem esmolar. Nas filas dos cafés, na porta das bancas de jornal. As moças, longas saias, longos cabelos, chegam a entrar nos trens, sempre duas a duas. De longe, os homens as protegem. Têm os cabelos gomalinados como mafiosos de filme, jaquetas e tênis de solas grossas.
E ha os que vendem jornais feitos por associaçoes de " sem teto". Dentre esses, muitos idosos. Ha uma senhora que se apresenta sempre muito arrumada, maquiada, cabelos pintados de louro e presos num coque bem feito. O jornal custa pouco mais que um café: 2 euros, dos quais o vendedor percebe 1. Sinto que pra ela é tao importante meu cumprimento quanto a moeda com que lhe pago.
Hoje ela nao estava la. De repente, perto do quiosque de jornais, vi à minha frente uma mulher que me pareceu uma velhinha - mas que provavelmente é pouco mais velha que eu - baixinha, arrastando duas grandes malas de rodinhas. Parou à minha frente, precisava de uma informaçao, com certeza. E, baixinho, me pediu um trocado - "une pièce". -Ahn? Ah, claro- e consegui sorrir tentando ser natural. Consegui? Mas valeu o esforço pois ela sorriu de volta e elogiou minha bolsa: - Bela bolsa! Dourada, bem na moda! - Pra chamar o ouro! respondi. E rimos cumplices, como freguesas que se encontram numa butique. Como atrizes sobre o tabulado.

samedi 25 avril 2009

"Eu, em principio, sou contra mas..."

Leio no Libération que o canal France 2 esta preparando um documentario a partir das experiências da chamada televisao-realidade, onde candidatos devem lutar entre si, de variadas maneiras, de modo a afirmar sua capacidade de sobreviver. Darwin forever.

A historia se passa em torno de uma "cadeira elétrica", nada menos. Um dos candidatos interroga outro sobre determinados assuntos (se sao previamente definidos ou nao, no caso nao tem a menor importancia). A cada resposta errada, o arguidor deve ministrar um choque no arguido, choque cuja voltagem aumenta à medida que os erros se acumulam.

Bem, bem, a "vitima" na verdade é um ator a serviço da produçao e o que é verdadeiramente testado é a capacidade de alguém inflingir tranquilamente a seu presumido parceiro choques de 260 volts porque acredita estar seguindo as regras de um jogo televisivo. A famosa "banalidade do mal" de Hannah Arendt.

Pois é. A idéia é de que a cada dia, mais e mais pessoas, nas relaçoes cotidianas, se descomprometem com seus presumidos principios, a partir do sentimento do dever de obediência à autoridade. - "Eu em principio sou contra mas..." - todo mundo ja ouviu ( ou sofreu) essa frase.

Conformismo ou cinismo? Burrice ou desonestidade? Como distinguir? Precisa distinguir?

Quantos filmes ja se fizeram sobre a dificuldade - e a grandeza - da "desobediência"? Quantas mesquinharias e crueldades ja se concretizaram acobertadas pela desculpa de se estar seguindo as regras?

A saudade ajuda e lembro da piada velha que todo mundo conhece. Nao resisto e conto so "la chute": - "Mas ja de porre a esta hora, meu General?"

jeudi 16 avril 2009

Boas noticias

A Associaçao de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros na França - APEBFR - organiza a partir de hoje um Seminario Internacional.
Vejam o programa abaixo. Vejam também o numero especial da revista da APEBFR - Passages de Paris - dedicado ao seminario (http://www.apebfr.org/passagesdeparis/)

Seminario Internacional
16, 17 et 18 avril 2009 à la Maison du Brésil de Paris

16/avril (jeudi)
19h à 19:30h – Ouverture. Intervenants: M. José Maurício Bustani, l’Ambassadeur du Brésil en France ; Mme. Inez Machado Salim, directrice de la Maison du Brésil ; et Paulo Burnier da Silveira, président de l’APEB-Fr.
19:30h à 20:30h – Concert de musique brésilienne : Trio Cartola (Aline Miklos, Fabio Leão et Boris Giraud).
20:30h à 22h – Cocktail d’ouverture.


17/avril (vendredi)
10h à 12h – Table-Ronde : « Les politiques de coopération scientifique entre le Brésil et la France : quelles sont les nouvelles perspectives ? ». Intervenants : M. Sandoval Carneiro Júnior, directeur des relations institutionnelles de la CAPES du Ministère brésilien de l’Education; M. Olivier Giron, chef du Bureau Amérique de la Direction des relations européennes et internationales et de la coopération du Ministère français de l’Enseignement supérieur et de la Recherche ; M. Marc Lipinski, vice-président du Conseil régional chargé de l’enseignement supérieur, de la recherche et de l’innovation scientifique et technique de la Région Île de France. Modérateur : Fábio Leão (APEB-Fr).
14h à 16:30h – Présentation des travaux de recherche (amphithéâtre et salle). Modérateurs : Oriana Fulaneti (APEB-Fr) et Wilson Maia (APEB-Fr).
16:30h à 17h – Coffee Break.
17h à 19h – Table-Ronde : « Les stages internationaux franco-brésiliens : une formation complémentaire ». Intervenants : M. Luiz César Monnerat Tardin, professeur PUC-Rio ; M. José Pedro Pradez, ingénieur ONG SBS ; M. Bertrand de Solere, avocat franco-brésilien, enseignant Science-Po Paris et président de la commission de stage international du Barreau de Rio. Modérateur : Luciano Gomes Filippo (APEB-Fr).
19h à 20h - Concert de musique française : Anne Marie Perret et invités

18/avril (samedi)
10h à 12h – Table-Ronde : « Les sujets de recherche brésiliens en France : parcours et perspectives ». Intervenants : Mme. Jacqueline Penjon, directrice du Centre de Recherche sur les Pays Lusophones - CREPAL ; Mme. Anais Flechet, présidente de l’Association pour la Recherche sur le Brésil en Europe - ARBRE ; M. Guillaume Leturcq, vice-président du Groupe de Recherche Interdisciplinaire sur le Brésil - GRIB ; et Mme. Patrícia Sampaio, représentante du Centre de Recherches sur le Brésil Contemporain - CRBC. Modératrice : Natália Lamas (APEB-Fr).
14h à 16:30h – Présentation des travaux de recherche (amphithéâtre et salle). Modérateurs : Oriana Fulaneti (APEB-Fr) et Wilson Maia (APEB-Fr).
16:30h à 17h – Coffee Break.
17h à 19h – Table-Ronde : « La Maison du Brésil et l’APEB-Fr : accueillant et représentant les étudiants et les chercheurs brésiliens en France ». Intervenants : Mme. Inez Machado Salim, directrice de la Maison du Brésil ; M. Rodolpho Bastos, ex-président de l’APEB-Fr – gestion 2003/2004; M. Vitório Vidal Caldoncelli, architect brésilien en France depuis 20 ans. Modérateur : Sabiniano Araújo Rodrigues (APEB-Fr).
19h à 19:15h – Clôture. Intervenante : Aline Mocó Silva Miklos, vice-présidente de l’APEB-Fr.
19:15h à 22h – Réception de clôture à la cafeteria de la Maison du brésil suivie de concert de musique brésilienne : Carolina Pedalino & Bruno Fer.
Présentation des travaux de recherche :
Vendredi, le 17 avril 2009
Amphithéâtre
14:00h -Selma Cristina Silva de JesusUne réflexion sur le projet du coopératisme de la Centrale Unique des Travailleurs (CUT)
14:15h -Marcelo MattosLes changements du PCB et du PCF: une autre voie entre le capitalisme et le socialisme?
14:30h -Santiane AriasQuel autre monde est possible? La question de la transformation sociale dans le mouvement altermondialiste
14:45h- Regina Leite de CamargoEntre campagne et ville: l’Agriculture Familiale à Ouro Fino/MG
15:00h- Elaine AmorimDes mouvements des chômeurs dans le contexte néolibéral: une analyse sur l’émergence des piqueteros en Argentine
15:15h- Oriana FulanetiAnalyse du discours de la gauche armée brésilienne
15:30h-Thaís Florencio de AguiarQu’est-ce qu’une démocratie démophobique ? Programme pour une généalogie des principes démocratiques
15:45h-Marco Aurélio Dias de SouzaGuerre culturelle, polarisation politique et la vision néo-conservatrice de la crise de la culture américaine
16:00h-Antonio Eduardo de OliveiraLa construction de la signification de région en temps de globalisation : le Nordeste brésilien et les régions de l’Union Européenne
16:15h-Aline Moco Silva MiklosLe tableau « la jungle » de Wifredo Lam: « le premier manifeste plastique du tiers-monde »
Salle
14:00h -Cláudia FonteneleQuand nait un bébé, une maman nait-elle aussi? – (re)construction sociale de la maternité et reproduction assistée chez les femmes stérilisées
14:15h -Maria Angela Favero-NunesLes consultations thérapeutiques et l’accueil du couple avec un enfant autiste
14:30h -Júlia Maciel SoaresUn enfant psychotique joue-t-il? Quelques réflexions autour du jeu chez l’enfant psychotique.
14:45h- Climene Laura de CamargoDe l’expérience familiale à la situation de violence
15:00h- Rosimare Alves Ribeiro PetitjeanÀ la recherche d’une intégration
15:15h- Eduardo SugizakiLa maladie de Carrion : l’histoire d’un défi à la pensée médicale
15:30h- Renata SebastianiLes malpighiaceae et la voyage d’auguste de saint-hilaire au brésil de 1816 à 1821
15:45h- Rodrigo Barbosa RibeiroLa question de la détermination sociale à partir de l’héritage laissé par l’œuvre de Lévi-Strauss
16:00h- João Cardoso Ferrão NetoMédias, oralité et culture lettré au brésil : vestiges d’un monde donné à lire
16:15h- Ana Silvia DaudibonEnquête sociolinguistique sur l’immigration brésilienne en Bretagne : transmission des langues parents/enfants dans les familles

Samedi, le 18 avril 2009
Amphithéâtre
14:00h- Aline DelmondesLa crise économique mondiale, la titrisation et le Brésil
14:15h- Leticia SakaiLes immunites des etats : vers un processus d’erosion ?
14:30h- Luciano Gomes FilippoLe consentement a l’impot au regard de la theorie de l’effectivite des normes constitutionnelles
14:45h- Miguel Burnier da SilveiraLa coopération et la cohérence dans la réalisation de la politique internationale : le rapport juridique entre le FMI et l’OMC
15:00h- Natália Mizrahi LamasLa bonne foi dans l’arbitrage commercial international
15:15h- Paulo Burnier da SilveiraLe contrôle international des concentrations économiques
15:30h- Tatiana Campos RochaLa disparition forcée des personnes
15:45h- Bernardo Buarque de HollandaLe football brésilien : du mythe à l’histoire
16:00h-Fábio LeãoAuralisation acoustique : la mise en jeu d’un système d’écoute virtuelle de salles existantes et synthétisées
16:15h Wilson Carlos Maia FilhoLes faiblesses structurelles de l’enseignement technologique au Bresil
Salle
14:00h- Edilson Nazaré Dias MottaFormação superior e cooperação científica entre países lusófonos: o caso de Brasil e Portugal
14:15h- Luana WünschA formação inicial : saberes necessários
14:30h-Daniel MeirinhoA manipulação fotográfica como processo de representação do real : a reconstrução da realidade
14:45h- Soraya JanuárioO homem contemporâneo e sua representação social nos media
15:00h- Bruna Diniz Leal NunesPlan vasco de inmigración : hacia un modelo de gestión de la diversidad
15:15h- Marcelo CamurçaPerspectives théoriques comparées sur le catholicisme contemporain entre le Brésil et la France
15:30h- Márcia Assunção AraújoAlimentation du corps et de l’âme: cheminement dans l’ashram
15:45h- Mariana Magalhães Pinto CôrtesModernité, assimilation et ambivalence au Brésil : la construction sociale de l’ambivalence dans la société Brésilienne contemporaine
16:00h-Brigida Ticiane Ferreira da SilvaLes stéréotypes dans les relations interculturelles : le cas des brésiliens et des guyanais
16:15h- Sálvio Fernandes de MeloPoésie orale et performance (au Brésil): la sorcellerie de la voix et du corps dans la capoeira angola.


mardi 14 avril 2009

Do Libération

Ha um blog no Libération particularmente interessante. Trata-se do " Les 400 culs", titulo que é um jogo de palavras com a expressao "faire les 400 coups", isto é, " aprontar todas" ( A primeira se pronuncia com aquela vogal dificil pra brasileiros, entre o /u/ e o /i/, /kü/ e a segunda com /u/ mesmo, /ku/). "Les 400 coups" é também o nome do primeiro filme de Truffaut, de 1959, cultissimo.
O blog em questao tem como subtitulo " O planeta sexo visto e contado por Agnès Giard". Suponho que a blogueira espera que se diga "Os 400 culs, blog da Agnès que nao é Varda", fazendo alusao à mulher de Truffaut, a cineasta de "As duas faces da felicidade". Os franceses adoram esse tipo de piadinha intelectual e alusiva: http://sexes.blogs.liberation.fr/agnes_giard/2009/04/sex-call-les-de.html
Nao é um blog erotico, é um blog de, digamos, antropologia dos comportamentos eroticos ou "da coisa erotica".
O post de hoje é sobre os call centers eroticos, muito difundidos por aqui. A publicidade deles entra pela televisao e aterrissa mesmo no seu computador se você nao tomar cuidado. Quem tem meninos em casa tem de explicar bem a eles que o segundo num telefonema desses custa carissimo. Garanto que é um argumento absolutamente eficaz e que apresenta a vantagem de nos dispensar de consideraçoes morais sempre dificeis de desenvolver sem hipocrisia.
Bem, o 0890XX nao esta à mingua de clientes. Sua publicidade quer fazer crer que se trata de um instrumento de encontros entre particulares, tipo Face Book e congêneres, so que sexual. Que as moças que respondem aos telefonemas sao francesas - para esse tipo de cliente, o fato de a moça ser francesa é valorizador- e esta, ela também, em busca de sexo por telefone.
So que o centro de chamadas esta um pouco longe, ali na Romênia (Nada estranho pois outros call centers, de vendas à distancia, estao também situados fora da França. Um dia, por exemplo, comprando por telefone uma roupa numa dessas firmas, acabei sabendo que a moça que me atendia estava na Tunisia).
Agnès Giard apoia este seu post numa reportagem feita sobre o assunto por um jornalista que conseguiu nao so entrevistar uma das moças como, com seu consentimento, gravou seu trabalho. Assim ficamos sabendo que as moças que desenvolvem as fantasias de quem telefona têm diplomas universitarios, um excelente nivel de francês - devem poder ser tomadas por francesas - e trabalham a preço de banana por falta de melhor para concluir seus estudos, em nivel de Master e mais. Que seu ambiente de trabalho se assemelha a uma redaçao de jornal, cada moça em seu box atendendo a varios telefonemas ao mesmo tempo com as vozes apropriadas. Que ha também as sessoes live com webcam e que para tanto sao contratadas atrizes de pornô, que sao dubladas pelas moças diplomadas para traduzir-lhes o que dizem os clientes ( "ele pede que você mostre os seios"), que supoem que voz e corpo pertencem a uma mesma pessoa.
- E os clientes acreditam mesmo nessa encenaçao que afinal de contas parece bastante grosseira? - pergunta Agnès Giard. Afinal, se eles lessem a razao social dos numeros 0890XX, escrita, é verdade que em letras pequenissimas, embaixo dos numeros, veriam que a sede esta na Romênia... O jornalista pensa que os clientes se lixam solenemente pra esse detalhe... ou seja, que a maioria entra no jogo.
Ultimo detalhe interessante: é a Francetelecom que concede as linhas, pra esse tipo de negocio como para todos os outros.

samedi 11 avril 2009

Ora direis, ouvir estrelas

http://www.obraemprogresso.com.br/
Voilà,
De conversa em conversa parei no blog de Caetano. Veloso. Parei para ler uma otima discussao sobre lingua culta, gramatica e cânone. Pois é.

vendredi 10 avril 2009

Frost/Nixon: a hora da verdade

Fomos ver hoje de manha o filme de Ron Howard, sobre a famosa entrevista de Nixon a um apresentador inglês em 1976, que teria acabado de liquidar politicamente o ex-presidente. Fomos de manha porque as sessoes matinais , às 10h30, 11h00, sao muitissimo mais baratas.
Saimos impressionados.
O filme é bem feito, nao ha duvida. Nao tem tempo morto, você nao tira o olho da tela, os atores estao todos otimos.
Mas... que é que esse filme quer dizer? Que dizer, em que sentido foi concebido? Que valores o sustentam?
Em primeiro lugar, sua apresentaçao é mentirosa. A frase sob o titulo o apresenta como o filme sobre a entrevista cujos direitos Nixon teria tentado recomprar. Ora, em duas horas de filme nao so nao se fala nem uma silaba sobre isso como também o personagem Nixon nao da nenhum indicio de que teria essa intençao. Por que falar nisso na propaganda?
O filme começa com a renuncia e a saida do ex-presidente de Washington às 9 da manha. Na Australia, um apresentador inglês constata que apesar da hora matinal, a audiência do espetaculo foi boa, o que significa que Nixon é assunto. Resolve entrevista-lo, move céus e terras para conseguir montar o projeto, cerca-se de uma equipe escolhida a dedo e lança-se ao combate.
Do lado de Nixon, a entrevista é vendida caro. Nixon teria recebido seiscentos mil dolares por quatro dias de entrevistas de 2 horas cada. Além disso, e sobretudo, ele quer uma chance de se explicar, de se defender, de modo a voltar à cena politica. Suas intençoes sao, alias, explicitas demais, patéticas demais. Um pobre homem que nao se conforma com o exilio politico.
Na segunda parte tem-se a entrevista, apresentada como uma luta. Nixon ganha os três primeiros rounds, sua equipe comemora, o lado oposto esta arrazado. No ultimo round Nixon vai à lona e é massacrado. No fim do filme, o inglês e o ex-presidente se despedem em casa deste, a "Casa Pacifica" , muito civilizada e simbolicamente.
A partir do meio do filme uma idéia começou a se formar na minha cabeça: trata-se de um filme a favor de Nixon. Nao me surpreenderia se soubesse que recebeu um aporte qualquer - nao necessariamente financeiro - de uma fundaçao pro-Nixon.
Porque , em primeiro lugar, é um filme que "aproxima" o personagem, humaniza-o e tira a questao do campo das idéias para pô-la no terreno das emoçoes; em segundo lugar porque desloca a questao do julgamento de açoes - a continuidade da guerra, a violaçao do partido democrata - para o campo do confronto entre o velho e o novo, decadência e juventude, amanhecer e entadecer ( é incrivel, essas imagens sao usadas), potência e impotência. A imagem basica é a de um pequeno David - um apresentador de variedades, lutando por um lugar ao sol , para melhor compor o personagem ainda por cima baixinho - contra o grande Nixon, esperto como uma raposa, poderoso e alto como um heroi de John Ford. O espirito aventureiro que faz a América acaba ganhando, mesmo se o entrevistaor é inglês. Ser americano é um estado de espirito. Me segura que eu vou dar um troço.
O que é mais estranho é que, sendo o filme sobre uma entrevista, esta nao aparece. Nenhuma cena. Ao fim, descreve-se sua ultima imagem de um Nixon arrazado, vencido e envelhecido. Por que nao mostra-la? Eu teria gostado de ver a tal imagem.
Mas sobretudo, ha uma malha solta na historia que o ritmo do filme tenta mascarar: por que Nixon perdeu essa batalha?
A primeira parte do filme trata do esforço de Frost para montar seu projeto. Um jovem e seu sonho, etc e tal. Coragem, determinaçao, resistência a pressoes e todo o tralala. Começa a entrevista. Apesar de toda preparaçao de Frost, desde a primeira frase Nixon controla o jogo. Obvio, trata-se de um ex-Presidente dos Estados Unidos da América, é preciso dizer por extenso. Um profissional, estranho seria se ele estivesse perdendo.
Na noite da véspera da ultima entrevista, Frost esta arrazado. Esta no hotel. a namorada sai para comprar uns hamburgers (literalmente). Justamente neste momento de solidao devido apenas ao acaso, quem telefona? Nixon em pessoa. Que, estranhamente, na véspera da ultima batalha de uma luta tao importante nao so para si mesmo como para seu campo, esta sozinho. E mais: esta bêbedo!
E possivel isso? Alguém com mais de 18 anos pode acreditar numa coisa dessas?
Muito bem, o velho bêbedo, sustenta um monologo diante de seu jovem e desperto antagonista no qual mostra que se vê nele: sao ambos saidos das classes populares, ambos esforçados, ambos em busca de recohecimento e do reconhecimento das classes altas. Isso os identificaria. Nixon conta a Frost casos que dao a este as idéias que o farao , no dia seguinte virar o jogo. Traduçao: nas trevas da noite, movido por seu inconsciente liberado pela bebida - 'stamos em plena cerimônia iniciatica, o guerreiro se entrega aos espiritos - Nixon passa o poder a Frost, sagra-o cavaleiro e pede que ele o envie descansar no Wahala.
Quando a namorada chega com os sanduiches Frost esta animadissimo, liga para Washington e, aproveitando-se da diferença horaria manda buscar um documento nao publicado na Biblioteca do Congresso. Que documento? Que palavras de Nixon fizeram com que ele se lembrasse desse documento? O ritmo do filme nao deixa o espectador raciocinar. Com essa muniçao ele desestabiliza um Nixon que, nao so nao se lembra de ter telefonado a Frost na vespera - claro, se nao o autor do filme tomava um processo da familia Nixon - como , estranhamente, no espaço de uma noite ficou curvado, lento, com o rosto vagaroso de quem começa um processo de Alzheimer. As questoes de Frost nao sao mais agudas a partir do tal documento super importante - nao consigo sequer me lembrar qual era a questao. Mas Nixon perde o rebolado. A coisa fica preta, sua equipe interrompe a entrevista, leva-o para a sala de apoio, previne-o dos erros que ele esta cometendo. Ele se insurge contra seu estafe e afirma estar fazendo o que quer fazer. Nixon contra Nixon. A confissao publica dos pecados cometidos. Um quaker querendo salvar sua alma.
A entrevista termina, Nixon tornou-se um velhinho no espaço de uma noite. Curvado, passo hesitante, sorriso timido. Comemoraçoes no campo oposto. Um tempo. A visita final de Frost a Nixon , a passagem de poder simbolica. Ganhou a democracia , ganhou a imprensa livre, ganharam os jovens, o exercito do rock. Eu, heim, Rosa!
Sai quase ofendida. Ha quantas geraçoes nos o povo somos enganados por historias como essa? Quando é que a "esquerda", "os democratas", " os liberais", "os bons", em suma , vamos parar de achar que somos os inteligentes e que "eles" sao burros? Se "eles" fossem burros e "nos" inteligentes, o mundo ja seria muito diferente, nao? Quando é que se vai contar que um presidente é uma ponta de um iceberg? Que é um feixe de forças e nao um monolito? Que nao interessa que seja velho, moço, paralitico ou "coureur de jupons"? Que nao é por acaso que os americanos se interessam tanto por filmes sobre a Mafia? Sabe aquele personagem que aceita ser preso, que reconhece todos os crimes, que aceita ser condenado à morte ou à prisao perpétua enquanto, na audiência do tribunal um representante do "chefe" apoia sua familia?
Fiquei pensando que quereria ver um filme sobre o backstage dessa entrevista sim. Mas o verdadeiro. Por que Nixon perdeu? Quem o entregou ? No interesse de quem,dentro de seu proprio campo, ele perdeu? Fiquei pensando que essa historia deve estar na cabeça de muita gente, que essa investigaçao deve estar rolando e que o filme é uma tentativa de responder a ela...

samedi 4 avril 2009

Cena Parisiense

( Quem gosta de mapas, como eu, pode clicar na imagem para ampliar )
Sexta-feira, sete da noite, corro pra pegar o RER ( metro interurbano) nos Invalides. Atras de mim uma moça, também correndo, me pergunta se o trem parado no cais de embarque vai a Juvisy. Respondo que nao sei, que nem me lembro de que lado fica Juvisy. Quando entro no vagao a moça chegou antes e faz sua pergunta a todos os que estao em pé . Ninguém sabe, todos olham pro esquema acima da porta procurando Juvisy desesperadamente. Nao ha tempo, a porta vai fechar, a moça tem de decidir, fica ou pula. Pula. A porta se fecha. Atras de mim, agarrada como eu ao mastro central, simpatica avo de cabelos brancos, de seus 65 , 67 anos. Cercada por tres lindas crianças em escadinha de três a seis anos, tao parecidas que nao se tem duvida de que sao irmaos. Gracinhas, me olham sorridentes, com aquele olho de criança que quer puxar assunto. A simpatica senhora me sorri também, estamos olhando as duas para o esquema acima da porta, procurando Juvisy. As crianças se mexem, a avo recomenda que se dêem as maos para se equlibrarem melhor. E se dirige a mim para dizer que Juvisy nao fica naquela direçao, a moça fizera bem em descer. Mas eu olho atentamente, descubro a estaçao e me viro pra ela: - Nao, olhai, vai passar la siii... Mas as crianças se mexeram , a avo esta dizendo ao menino que -"Nao!"- e zapt, lasca-lhe um tapa na cara na frente de todo mundo. O tapa estala, o garoto nao da um pio. Nem ninguém ali em pé. Estatelados todos nos. Um segundo so, a senhora, na sequência, olha pra mim com o mesmo sorriso finissimo , a mesma voz sem nenhuma alteraçao: -" Desculpe, nao ouvi bem, a senhora dizia?" Eu consigo balbuciar que tinha achado Juvisy no esquema. E ela, sempre imperturbavelmente sorrindo: -"E mesmo, eu ja tinha reparado, foi pena ela ter descido...". E, como se no teatro, o trem para imediatamente e desce a doce avo com seus adoraveis netinhos.

lundi 30 mars 2009

Igrejas de Paris

(clique sobre a imagem para ver os detalhes dessa maravilhosa igreja)
Cheguei a Paris pela primeira vez sozinha, à noite, de trem. Peguei um táxi na Gare de Lyon e dei o endereço da amiga que me hospedaria. Sem noção de direção, fui olhando pelos vidros do carro a cidade que me aparecia sob a chuva. Atravessamos uma ponte, seguimos o cais e de repente eu vi os fundos da Notre Dame à minha direita. Senti aquele baque, claro, era o cartão postal agora na realidade. O táxi foi seguindo e eu contemplando sua lateral, suas torres. Temi me enganar. E se fosse outra igreja? Num ar falsamente cool , perguntei ao motorista qual era “aquela igreja” . Ele virou-se literalmente para trás e me perguntou entre irritado e indignado: - Mas qual igreja, Madame? Ė a catedral de Notre Dame!
Pois é, a Notre Dame tem um lugar à parte. Sobre sua arquitetura e decoração há abundante bibliografia mas mesmo sem ela o visitante se dá conta de que História e mito ali se entrecruzam, de São Luís a Napoleão ou, para os franceses, a de Gaulle, que, em 1944, na missa que celebrava a liberação de Paris, sofreu o primeiro atentado. Na parte exterior as górgonas atraem os olhos do visitante literário ( ou com filhos pequenos, que Hugo nos perdoe as oferendas que fazemos a Disney). Nesse ponto, no entanto, um certo corte no clima é dado pelas inúmeras ciganas que pedem esmolas nas vizinhanças. O próprio Victor Hugo teria dificuldade em reconhecer Esmeralda hoje em dia, tanto elas parecem ameaçadoras.
Por outro lado, outras incontáveis igrejas valem também a visita. Em cada uma delas todo mundo sabe que se pode fazer também um curso de história, de arquitetura ou de arte. Mas, sobretudo, cada uma delas tem seu clima, ou melhor, cada uma delas oferece o cenário para cada visitante criar um clima, de acordo com suas vivências, seu repertório, suas expectativas. Como por exemplo, Saint-Julien –le Pauvre, Saint Séverin e a capela da Medalha Milagrosa, todas na rive gauche.
Saint-Julian-le –Pauvre, de rito católico grego, fica quase em frente à Notre Dame. Foi construída, reza a lenda, com as pedras que sobraram na construção da catedral, em 1170. Sua fachada acabou de receber uma limpeza e ela brilha como um castelo de areia. É pequena e acolhedora com seus ícones e sua decoração interior em dourado, estranhamente bonita, quase inquietante. Nela se realizam ordinariamente concertos de música clássica e de gospell. Ao lado, dando para o cais de Montebelo, está o Jardim de Saint-Julien –le-Pauvre, onde se pode sentar calmamente para comer um sanduíche trazido de casa e admirar as flores, ler o jornal ou namorar, enquanto as crianças gastam as energias correndo em torno do chafariz. É preciso porém tomar cuidado para que elas não incomodem os (poucos) mendigos que ali vão usar seus direitos de, como cidadãos, dormir nos bancos, já que não têm casa. Se não, eles podem protestar desagradavelmente, para dizer o mínimo. Melhor é acalmá-las e fazê-las brincar sob as raízes da árvore mais velha de Paris, de 400 anos, ou mostrar-lhes o velho poço. À frente , na ilha de la Cité, ergue-se, majestosa, a Notre Dame. Na rua lateral , que se chama rue de Saint-Julien-le-Pauvre, havia até ouco tempo atrás uma loja onde se podiam alugar bicicletas. Em seu lugar hoje ha uma lojinha de souvenirs…
Pertinho temos Saint- Séverin, na rua de mesmo nome, no coração do “quartier latin” , construída entre os séculos XIII e XV. Os vitrais são famosos, os mais antigos datando do século XIV e por eles e por sua arquitetura gótica, a igreja está sempre cheia de turistas e de estudantes de arte. Como em todas as igrejas que viraram museus de fato, o lugar de culto está, de ordinário, numa capela ao fundo. Ao andar pelas naves laterais , não se pode deixar de pensar em S. Vicente de Paulo (realmente “meu tipo inesquecível”), que ali batizou inúmeras crianças encontradas nos arredores. Atualmente , à noite, também ali se dão concertos de música classica. Ao lado há também um jardim arborizado, desta vez, privativo da igreja. E nas ruas laterais encontram- se lado a lado pintores, desenhistas e fotógrafos , todos desejosos de captar sob um novo ângulo ou sob uma nova luz um detalhe de sua arquitetura ou o recorte do edifício contra o céu.
No entanto, a minha preferida é a capela da Medalha Milagrosa, um edifício novo para os padrões franceses. Data do século XIX. Fica na rue du Bac, número 140, em frente à loja de departamentos Bon Marché. O edifício é mesmo difícil de achar pois a capela não é vista da rua. No entanto, não é à toa que esse é um dos endereços mais procurados de Paris. Respira-se aí ao mesmo tempo simplicidade e transcendência, e isso independentemente de se ter ou não fé religiosa. O caminho entre a porta de entrada e a da capela mostra em quadros, a vida de Catherine Labouré, a religiosa a quem, nesse local, em 1830 a própria Virgem Maria pediu que fosse cunhada uma medalha em sua honra… O relato desse encontro, feito através de quadros na parede, é tocante e em sua simplicidade deixa em aberto sua interpretação. O fato é que chegando à luminosa capela de cores claras, com suas linhas arredondadas como um regaço maternal, se ouve ainda a voz da órfã Catherine que falava com a Virgem com a intimidade de uma filha que se sabe muito querida. Um lugar de força.

samedi 28 mars 2009

Proust e Paris

Ninguém melhor retratou Paris e os parisienses e talvez mesmo a França e os franceses que Proust. Nada, ninguém mais atual. Nenhum autor conseguiu retratar melhor o "espirito parisiense", talvez mesmo "francês", que consiste justamente em - perdao - seu conservadorismo. Nao teve maio de 68, nao teve descolonizaçao, nao ha invasao dos barbaros internos ou externos que mude isso: a sociedade francesa é palaciana, hierarquizada, cuidadosa em conservar seus usos e costumes. Dai, a maioria de seus problemas atuais, é claro a olho nu. Mas dai também sua força e seu charme, sem nenhuma duvida.
Uma amiga brasileira que esteve aqui em visita, nos ultimos 15 dias, me dizia ontem que depois de sua volta ao Brasil - ela fez seu doutorado aqui - , quando volta a Paris, frequentemente a trabalho, sempre tem a sensaçao de que os colegas franceses sao "timidos", que "nao ousam" - ela é sociologa, especializada em reinserçao social pelo trabalho. -"Sera isso mesmo ou eu é que nao estou entendendo mais?", pergunta ela.
Mas vamos a Proust . O excerto é de Sodoma e Gomorra, traduçao minha. Trata-se de uma festa na casa da Princesa de Guermantes, para a qual o narrador teme ter recebido um convite por engano e, apresentando-se à festa, dela ser expulso. Sem ter podido acalmar sua inquietaçao, ele decide-se finalmente a ir à festa e é bem recebido. Chegam os duques de Guermantes, que sao vizinhos do narrador e que se dizem seus amigos. Ora, antes da festa o narrador havia pedido a Oriana, a duquesa de Guermantes, que se informasse sobre se ele estava ou nao realmente convidado, pedido que fizera também ao duque. Nenhum dos dois quisera fazer a pergunta aos principes de Guermantes, seus primos, pois fazê-la implicaria uma recomendaçao de convite, um comprometimento.
"O duque, depois de um longo olhar com o qual durante cinco minutos arrazou sua mulher: " Contei a Oriana as duvidas que você tinha." Agora que ela via que tais duvidas nao tinham fundamento e que ela nao precisava fazer nada para tentar dissipa-las, ela declarou-as absurdas e brincou comigo longamente. "Que idéia achar que nao tinha sido convidado! Nos somos sempre convidados! E depois, você podia contar comigo! Você acha que eu nao teria podido convida-lo para uma festa em casa de minha prima?" Devo dizer que, em seguida, ela fez frequentemente coisas bem mais dificeis por mim. No entanto tomei o cuidado de nao dar a suas palavras o sentido de que eu teria sido desconfiado demais. Eu começava a conhecer o exato valor da linguagem falada ou muda da amabilidade aristocratica, amabilidade feliz por aliviar o sentimento de inferioridade daqueles sobre os quais ela se exerce mas no entanto nunca ao ponto de dissipa-lo, pois, nesse caso, ela nao teria mais razao de se exercer. " Mas você é igual a nos, se nao melhor", pareciam, por todas as suas açoes, dizer os Guermantes; e eles o diziam da maneira mais gentil que se possa imaginar, para serem amados, admirados, mas nao para que se acreditasse neles; que se pudesse compreender o carater ficcional dessa amabilidade era o que eles chamavam ser bem educado; acreditar que a amabilidade fosse real, era a ma educaçao. Recebi, alias, pouco tempo depois uma liçao que acabou de me ensinar, com a mais perfeita exatidao, a extensao e os limites de certas formas da amabilidade aristocratica. Foi numa matinée dada pela duquesa de Montmorency em honra da rainha da Inglaterra; formou-se uma espécie de pequeno cortejo para ir ao buffet e à frente estava a soberana pelo braço do duque de Guermantes. Cheguei nesse momento. Com sua mao livre, o duque me fez, ao menos a quarenta metros de distância, mil sinais, que pareciam querer dizer que eu poderia aproximar-me sem medo, que eu nao seria comido com roupa e tudo no lugar dos sanduiches. Mas eu que começava a me aperfeiçoar na linguagem das cortes, em lugar de avançar nem mesmo um passo, a meus quarenta metros de distância, me inclinei profundamente, mas sem sorrir, como faria diante de alguém que acabasse de conhecer e continuei meu caminho em sentido contrario. Se eu tivesse escrito uma obra-prima os Guermantes me teriam honrado menos que por esse cumprimento. Nao apenas ele nao passou despercebido aos olhos do duque, que no entanto, nesse dia, tivera de responder a mais de quinhentas pessoas, mas aos da duquesa que, tendo encontrado minha mae, contou-lhe o fato e, longe de dizer-lhe que eu errara e que deveria ter-me aproximado, disse-lhe que seu marido ficara maravilhado com meu cumprimento, que continha tudo o que se podia dizer em tal circunstância. Todos nao cessaram de dar a esse cumprimento todas as qualidades, sem mencionar, entretanto a que parecera a mais preciosa, a saber, que tinha ele sido discreto, e nao cessaram também de me fazer cumprimentos que eu compreendi serem menos uma recompensa pelo passado que uma indicaçao para o futuro, como aquela delicadamente fornecida a seus alunos pelo diretor de um estabelecimento de educaçao: " Nao esqueçam, caros meninos, que esses prêmios sao menos para vocês que para seus pais, a fim de que eles os matriculem de novo no proximo ano." E era assim que Madame de Marsantes, quando alguém de um mundo diferente entrava em seu meio, elogiava diante dessa pessoa as pessoas discretas " que se acham quando as procuramos e que se fazem esquecer no resto do tempo", como se previne indiretamente um empregado doméstico que cheira mal de que tomar banho é perfeito para a saude."
Proust. Sodome et Gomorrhe. Ed. présentée, établie et annotée par Antoine Compagnon. Gallimard, 1989, Folio, p. 62-63.

vendredi 20 mars 2009

A cidade e o tempo


Em Paris o tempo parece aprisionado. Nas ruelas e pracinhas do Quartier Latin o movimento do comércio e dos bares, dos estudantes e dos turistas deixa perceber um barulho de saias longas, de carroças, de palavrões e de injúrias vindas de outros tempos. Difícil, passar pela Conciergerie e não ouvir os lamentos de Maria Antonieta contra os nobres e também contra a Igreja que a abandonara, impossível entrar na Notre Dame e não ouvir o zum-zum dos presentes à coroação de Bonaparte. Como passear pelo “sezième”, a chiquissima décima-sexta região de Paris, pelos subúrbios ultra-chiques de Neully, Passy e Auteuil ou ainda pelo bois de Boulogne, sem pensar na Condessa de Ségur e, evidentemente, em Proust ? Vista das pontes do Sena ou das escadas do Sacre-Cœur de Montmartre, a paisagem nos faz sentir parte de um filme, ou melhor, de uma filmagem, na qual nos sentimos atores garantidos pelo roteiro. Condensando as épocas e perenizando sentimentos e impressões.

Nessas circunstâncias é difícil aceitar que a cidade permanecerá ainda por muito tempo mas nós estamos só de passagem. E pior ainda, que o fim da viagem é tão penoso que quase não se fala dele. Quem quereria falar não encontra muitos que queiram ouvir. O bom-tom quase que exige que, sobretudo as mulheres, a partir de uma certa idade, saiam de cena o mais discretamente possível. A praça seria dos jovens como céu é dos pardais parisienses.

No entanto, a geração que inventou a juventude está hoje reinventando por aqui a velhice. Depois de passar por ginásticas, plásticas e pílulas miraculosas para prolongar a força e a beleza está procurando encarar o inevitável e fazer com ele o que for possível. Afinal, a expectativa de vida por aqui está em torno de 80 anos e as ruas mostram que a realidade ultrapassa essa perspectiva. Esta geração que viu seus avós serem postos em eufêmicas casas de repouso e nao sabe bem o que fazer com seus próprios pais idosos está-se dando conta de que sua vez está chegando. E resolve enfrentar o fato de que as tais “casas de repouso”não são a melhor solução. Pelo menos não para o principal interessado, o idoso solteirão ou já viúvo, que preferiria morar com alguém ou continuar em sua própria casa. Mas como, numa sociedade ainda baseada em valores individualistas? Como, numa sociedade micro-familiar? Como, nos geralmente mínimos apartamentos parisienses, onde muito frequentemente não há elevador e onde os banheiros, já pequenos, são geralmente longe dos quartos?

Em Paris procura-se pensar o problema. E já se encontraram algumas soluções, de ordem econômica, ao menos. Assim, os idosos dependentes ou semi-dependentes com menos recursos contam com ajudas financeiras da prefeitura, estejam eles em sua própria casa ou já num estabelecimento geriátrico. Se permanecem em sua propria casa podem contar com ajudas financeiras destinadas à contratação de serviços domésticos, ou de ajuda para as atividades cotidianas (banho, por exemplo) ou regulares (lavagem dos cabelos, corte, pedicure especializada, compras, etc). A adaptação dos apartamentos às novas condições de seu habitante são igualmente apoiadas financeiramente. Se estao num estabelecimento geriatrico, podem contar com uma ajuda financeira para o pagamento da instituição. O Estado estimula também o acolhimento dos idosos em família, a sua própria ou outra. Quem recebe um idoso recebe também uma ajuda financeira, além de um desconto no imposto de renda. Há famílias que complementam seu orçamento dessa forma. E temos de levar em conta que a assistência médica, incluindo-se aí os remédios, é coberta em média em 70% pela Previdência Social e que a maioria das pessoas conta com um seguro-saúde que cobre os 30% restantes.

Por outro lado, uma nova geração de idosos começa a se formar, diferentemente da precedente. Avôs e avós que estão hoje ainda na plenitude dos 50, 60 anos , alguns ainda na vida ativa, voltam, como seus próprios avós, a tomar conta dos netos. As gerações começam a se reaproximar.

Começa assim a tomar forma um novo movimento de solidariedade intergeracional. Num dos centros do chamado “primeiro mundo” começa a se estruturar socialmente a consciência do tempo que passa para todos e para cada um. Com seus desgastes e com seus valores. Condensando as épocas e perenizando impressões e sentimentos.

mercredi 4 mars 2009

Doces interditos

Passear pelas ruas de Paris é flanar no meio da tentação. Eu sei, eu sei, queremos todos ser magros, belos, ágeis , musculosos, usar as roupas da moda e exbir pele de pêssego. E não queremos desenvolver diabetes. A propaganda nos impõe um padrão de beleza difícil de acompanhar quando não se tem mais vinte anos, e as revistas não permitem que a gente se engane quanto à melhor forma de se alimentar.
Mas... um simples passeiozinho pela cidade exige assim mesmo toda a força de vontade do mundo para que nossas boas intenções não se esborrachem. Porque, para começar, as padarias estão por todo lado. Rivalizando entre si. Disputando o mérito de produzir o melhor pão. Volta e meia, uma revista exibe como reportagem de capa uma pesquisa sobre os melhores pães da cidade, o que significa que o tema faz parte das preocupações cotidianas dos parisienses.
De fato, merecem mais que uma reportagem, merecem um estudo, as padarias de Paris. Porque, ainda por cima, elas não vendem só pão, oferecem também tortas super apetitosas, lindas e cheirosas, doces e salgadas. Por exemplo, no perímetro em que circulo cotidianamente, entre a praça Maubert e a praça do Odéon, há pelo menos quatro estabelecimentos a evitar por amor à linha. Na praça Maubert é preciso fugir dos pãezinhos com chocolate ou com passas, além dos chocolatinhos que se vendem em lindas caixinhas tão pequenas que se acredita em sua inocência.
Subindo a rua Monge, pertinho, temos a alsaciana Kayser, com baguettes, quer dizer, bisnagas, de todo tipo: com farinha branca, com farinha integral, feita à moda antiga, à moda moderna, à moda da padaria, etc etc. Todas ótimas, com as pontas torradinhas. Tem sempre fila e os fregueses saem pela rua invariavelmente comendo mais ou menos discretamente as pontinhas. Ao lado dos caixas as espertas gerentes põem cestinhas de vime com as novidades do dia partidinhas, ao alcance da mão do freguês ou de seus filhos. Pães com salame, com nozes, com avelães ( chamado “pão do esquilo”) , com ameixas, com queijo. É provar e, logico, comprar. E uns medievais enormes pães redondos, e umas brioches com e sem recheio que fazem realmente lembrar os gostos daquela austriacazinha avoada que andou dizendo umas bobagens em Versailles no fim dos 700 e acabou literalmente perdendo a cabeça.
E as tortas? Entre a de creme com cerejas e a de chocolate com morangos a escolha é realmente duríssima mas a campeã é mesmo a charlotte com amêndoas e frutas vermelhas , quer dizer, framboesas, groselhas e mirtiles.
Do lado da praça do Odéon , na rua de Buci, está a padaria e confeitaria Carton. Ao passar por ali cuidado com os docinhos expostos na vitrine. Sao mini mil -folhas, macarons (um tipo dos nossos conhecidos bem-casados) loucamente cor-de-rosa, éclairs (bombinhas) de café, mini tortinhas verdes de kiwi. Delicados nas bandejinhas, parecem de porcelana. Mas são de açúcar, farinha, ovos e outras combinações mortais. Lá estão também os melhores croissants da região.
Três passos adiante há uma loja do Paul, outro alsaciano, que exibe através de suas largas vidraças, a fabricação de seu pão. Podemos assim, da rua, acompanhar a massa saindo da enorme batedeira , sendo trabalhada pelos padeiros, entrando e depois saindo dos fornos. Um espetáculo a apreciar. Dentro, um salão de chá com enormes lustres de cristal onde se pode tomar um bom chocolate quente. Os pães são excelentes. Lá aprendi que o sésamo serve não só para abrir cavernas mas também para temperar massas. As tortas são ótimas também e na época do Haloween fizeram umas maravilhosas, de chocolate negro com laranja.
E para terminar, como nem só de padarias vive a maldição da gula, entre essas duas praças há a Pâtisserie Viennoise. Fundada em 1928 por um casal de húngaros, fica em frente a um auditório da Sorbonne, num prédio construído por Luís XV para ser escola de desenho (prédio que, diga-se de passagem, vale a pena visitar), na rua de l’Ecole de Medécine, número 8. São duas salas pequeninas sempre cheias e enfumaçadas com uma constante fila na porta. Na hora do almoço pode-se comer um bom pedaço de deliciosa torta salgada ( de frutos do mar, por exemplo) com uma salada por preços muito razoáveis. E como sobremesa ou na hora do chá, preparem-se para a arte da escolha: tarte tatin (torta de maçã caramelada assada no fundo da forma) ou strudel com creme chantilly? Torta de chocolate com nozes? Com maracujá? Torta de damasco com avelãs e pistaches? Ou quem sabe apenas um sóbrio café vienense (com muito creme) e uns biscoitinhos sablés?
E depois, ah, depois de tantos crimes tem de vir a expiação: quinze dias de dieta da sopa.

dimanche 22 février 2009

Manhã de Carnaval, sem Carnaval, com Pasolini

Os filmes que marcam nao ficam inteiros. Ficam trechos, cenas, uma frase, uma cançao, o tema, um tema.
Medéia, de Pasolini. Provavelmente seu tema principal é, como na tragédia, a paixão sem limite, "o que não tem juizo nem nunca tera".
Mas pra mim o que ficou do filme foi outro tema, não menos passional: a mudança de valores, a necessidade de mudança, a desconstruçao de valores, unica forma de luta contra o poder.
Jasão e Medéia estao fugindo com o velocino de ouro. Atras deles vem o rei, proprietario da pele magica. Nem toda a astucia de Medéia consegue deter o rei que vai certamente apanha-los.
Entao Jasão atira-lhe o precioso velocino e lhe diz: "Esta pele fora de seu lugar de origem perde todo o seu significado".
Do filme, em preto e branco so me ficou essa cena, essa frase. E ficou muito.
Contextualizar, descontextulizar. Territorializar e desterritorializar, diriamos hoje.

vendredi 13 février 2009

Deixe o sol brilhar!

E o futuro chegou!
Os amigos que entendem do assunto avisaram durante toda a semana: é hoje. Começou a Era de Aquarius.
Iluminemo-nos!

http://www.youtube.com/watch?v=EhbxI5eVnM4

When the moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
And love will steer the stars
This is the dawning of the Age of Aquarius
The Age of Aquarius
Aquarius!
Aquarius!
Harmony and understanding
Sympathy and trust abounding
No more falsehoods or derisions
Golden living dreams of visions
Mystic crystal revelation
And the mind's true liberation
Aquarius!
Aquarius!

Let the sun shine,
Let the sun shine!

jeudi 12 février 2009

Professores em Greve

Lyon, terça-feira, duas horas da tarde.
"Pecresse, t'es foutue, les professeurs sont dans la rue! " "Du fric pour la fac! ", "Du blé pour la recherche!".
O carro de som, com o som como sempre meio distorcido, urrava as palavras de ordem: "Pecresse ( A ministra da Educaçao Superior e da Pesquisa), cê ta fudida, os professores estao na rua!", " Grana para a fac!", "Erva para a pesquisa!". Atras dele, logo no principio da passeata, eu tentava me esconder entre os outros professores. Senhoras de cabelo grisalho e oculos ao lado de estudantes com laços de papel colorido na cabeça gritavam, berravam essas grosserias . Na rua os passantes paravam para nos ver passar, janelas se abriam, turistas nos fotografavam. A passeata dos professores atravessava a cidade aos berros e iria até a porta da Reitoria. La pelas tantas achei uma esquina e nela entrei. Que vergonha!
Por que sera que as passeatas se parecem todas? Sera que os professores nao se dao conta de que sua especificidade tem de ser mostrada em todas as circunstâncias, sem exceçao? Por que fazer politica tem de ser confundido com "coisa de jovem" e uma manifestaçao tem de ser grosseira?
O movimento dos professores é, ao mesmo tempo, um sucesso e um fracasso. Um sucesso em termos externos pois a mobilizaçao é enorme. Um fracasso em termos internos pois nao ha - ao menos até onde posso avaliar - o menor crescimento na consciência critica dos professores. Ha duas semanas o movimento so evolui em quantidade de adesoes. A qualidade é a mesma: é um movimento "contra". E dai nao passa.
O motivo é um decreto que muda o estatuto dos professores universitarios. Na verdade, este decreto é a consequência logica de outro que - este sim, perigosissimo - passou no ano passado sem que os professores suspeitassem de sua gravidade. Os alunos fizeram greve, protestaram, etc e tal mas os professores ficaram frios. E se tratava, nada mais, nada menos que do decreto da autonomia universitaria, muito nosso conhecido, hidra contra a qual lutamos desde os anos 70. ( Alias, um colega da USP me disse que a USP e todas as outras universidades do Estado de Sao Paulo sao autônomas e que para elas a autonomia é um sucesso. Vejam so.)
O decreto de agora, contra o qual se batem os professores, mexe diretamente com seu regime de trabalho. A partir de agora, se o decreto nao for retirado, os Presidentes das Universidades ( Reitores) sao os responsaveis pela gestao do pessoal cabendo-lhes as promoçoes do corpo docente. Além disso, os professores serao avaliados quanto a sua produçao acadêmica: quem nao tiver um determinado numero de publicaçoes tera sua carga docente aumentada. Nada diferente do que acontece no Brasil mas por aqui ninguém sabe o que é um relatorio docente de final de ano, que na UFRJ chamavamos de Planind e muito menos o que é um relatorio fnal de departamento, nosso velho Plandep. Aqui, quando se falou em exigência de produçao o céu desabou. Ai todos aqueles chavoes com cheiro de naftalina foram exumados: que quantidade nao quer dizer nada, que todo mundo vai começar "a publicar por publicar", que havera uma quantidade enorme de "artigos vazios" etc e tal. Ha gente que escreve a sério que dar mais aulas a um professor-pesquisador ( é este o titulo do professor universitario aqui) que nao pesquisa é contraproducente porque se ele nao pesquisa tendo menos aulas, pesquisara menos ainda se tiver mais aulas... e que se ele nao faz pesquisa, coitado, é porque deve estar cansado de uma vida de estudos... E que Foucault so escreveu " As palavras e as coisas" aos 50 anos. Como se fosse a primeira coisa que ele tivesse escrito... Dizer o quê?
E do X maiusculo da questao ninguém fala: como é que sera implantada a autonomia? Que fazer com os professores nao efetivos, que sao a maioria na universidade? Como modificar o recrutamento dos efetivos, que se faz por indicaçao entre Titulares (Professeurs) e Chefes de Departamento e nao por concurso? Esses sao assuntos tabou.
A impressao que tenho é que pouca gente leu o decreto. E de que a maior parte dos professores esta começando agora a pensar em politica. Fazer o quê?

lundi 9 février 2009

Paris de Andar e Ver

Em memória do poeta Luiz da Veiga Leitão


Uma das maneiras de se visitar Paris é traçar itinerários de praça em praça. A praça de Saint-Michel dominada pela imagem do combate entre o anjo guerreiro e o demônio é um cartão postal da cidade e um de seus símbolos. É um ponto de encontro: além dos usuários de uma das mais importantes estações de metrô - Saint-Michel - ali se cruzam os frequentadores das livrarias existentes dos dois lados da praça, os alunos do segundo grau que lá vendem em setembro, seus livros escolares do ano anterior, manifestantes " de tout poil", músicos e dançarinos de rua, que ali fazem apresentações, turistas, desocupados, mendigos e drogados, que se misturam sob os respingos da água nem sempre limpa do chafariz.

A praça do Odéon , cercada de cinemas, tem ao centro a estátua de Danton, no lugar exato onde ficava sua casa. É um ponto tão animado quanto Saint-Michel , mas sutilmente mais refinado, com seus bares, uma ótima cervejaria, restaurantes e boutiques de roupas e sapatos. Para quem vem do cais do Sena, atras esta o Jardim do Luxembourg e, antes, o teatro do Odéon.

Entre uma e outra praças está a rua de Saint-André-des-Arts, passagem obrigatória em qualquer visita a Paris. Logo no seu início, à direita do chafariz de Saint-Michel temos a pracinha de Saint-André-des-Arts, onde, no verão também há música. Neste último ano ouvi um grupo de cinquentões que tocavam – bonito - os Beatles. Seguem-se lojas de bijouterias e de jogos, creperias sempre cheias, boas e relativamente baratas, uma confeitaria árabe e um pub irlandês. Adiante tem-se um jardim de infância público. Se for hora de entrada ou saída de crianças vale a pena dar uma espiada no pequeníssimo pátio, que tem no centro uma árvore circundada por um banco, como nas ilustrações dos livros infantis de antigamente. Continuando esta o Lycée Fénelon (colégio de segundo grau), publico, muito bem conceituado. Algumas lojas de roupas mais e chega-se à Cours du Commerce de Saint-André, uma passagem parisiense , quer dizer, uma rua coberta , que nos levará à Praça do Odéon.

Construída em 1776, ela é na verdade uma entrada no túnel ou melhor, num caleidoscópio do tempo, onde se misturam diferentes épocas. Ali se situava a gráfica que imprimia o jornal revolucionário “O amigo do povo”, ali se construiu também a primeira guilhotina. Na entrada pela rua de Saint-André des Arts temos dois bares-restaurantes bonitos, animados e decididamente contemporâneos. Seguem-se uma loja de bonsais, aquelas assustadoras miniaturas vegetais que me lembram sempre os pés deformados das chinesas. Em frente havia, até pouco tempo atrás uma casa de chá que parecia saída de um livro infantil: pequena, com poucos lugares, mobília “estilo francês” branca patinada, lustres de flores de cristal, louça parecendo saída da cristaleira da vovó e inúmeras tortas expostas à gula dos passantes: de cereja, de morango, de amora, de cassis (uma torta azul-escuro... ). Agora há um restaurante bonitinho, sem mais. Em frente, uma loja de brinquedos onde ursinhos e outros bichos de pelúcia se harmonizam com fantoches e marionetes. A ruela é estreitíssima, o calçamento é tipo “pé de moleque”, as construções parecem achatadas.

A direita temos uma entrada para o restaurante Le Procope, cuja entrada principal é pela rua de l'Ancienne Commédie, ao lado. Trata-se do mais antigo café de Paris e que, justamente, introduziu o café na cidade, em 1686 , tornando-se logo point intelectual e artístico. No século XVIII os filósofos o frequentaram e consta que foi em suas mesas que Diderot e Alembert tiveram a idéia de elaborar a propriamenta dita “Enciclopédia”. Danton, Marat, Camille Demoulins e mais tarde Musset, Verlaine, Balzac e Huysmans também o frequentaram. Vale a pena visitá-lo, sobretudo pela decoração que consegue ser ao mesmo tempo pesadíssima e maravilhosa, e pelo clima, ao mesmo tempo chique e à vontade. Não é exatamente barato e a comida nao é la essas coisas mas quem quiser jantar antes de sete da noite se beneficia de preços mais em conta.

E atenção à esquerda. Uma entrada, fechada à noite, leva o flâneur à um lugar de sonho: a Cour de Rohan, que deve seu nome ao fato de ter pertencido ao bispo de Ruão.Trata-se de uma sucessão de três pátios cercados de pequenos e maravilhosos prédios residenciais, que vão dar na rue du Jardinet. Embora particular, o condomínio chiquíssimo não pode ser fechado durante o dia porque - coisas de Paris - uma escola pública primária ali tem uma de suas saídas. O que é uma sorte para todos, que assim podem apreciar não apenas as construções que aproveitam todos os centímetros do espaço mas também o uso das flores e plantas em geral na composição desse cenário de simplicidade elegante. Não é à toa que pintores e desenhistas dão plantão ali.

De volta à Cours du Commerce, temos a Maison de la Catalogna, com seu centro cultural moderno e antenado e seu restaurante, relativamente barato, desta vez. Enfim, a passagem se bifurca. Se seguirmos em frente, sairemos na praça do Odéon passando por um bar australiano da moda. Sempre animado. No entanto aconselharia virar à direita, para sair pela rua da Ancienne Comédie. Bem no ângulo há um bar restaurante desses nos quais se tem de tomar ao menos um copo de vinho, ao menos para se sentir parte do ambiente composto de lustres, reflexo de copos e cortinas. Procure uma mesa que deixe ver a passagem . Se tiver sorte, na primavera ou no verão vai aparecer um músico na porta. Da última vez em que lá estive uns rapazes tocavam um chorinho brasileiro.

mercredi 4 février 2009

Dentro da noite veloz

Ana Cristina César: Quero te passar o quarto imovel com tudo dentro e nenhuma cidade fora com redes de parentela. Aqui tenho maquinas de me distrair, tv de cabeceira, fitas magnéticas, cartoes postais, cadernos de tamanhos variados, alicate de unhas, dois pirex e outras mais. Nada la fora e minha cabeça fala sozinha, assim, com movimento pendular de aparecer e desaparecer. Guarde bem este quarto parado com maquinas, cabeça e pendulo batendo. Guarde bem para mais tarde. Fica contando ponto.

Riobaldo: Como é que eu nao tive um pressentimento!

mercredi 14 janvier 2009

Gaza sur Seine

A França pode surpreender muito. Boas e mas surpresas. Dentre as mas, a questao identitaria.

Algum brasileiro imagina uma briga de alunos num colégio chique na qual uma aluna de 5° série xingaria um colega de qualquer coisa como " judeu filho da puta"? Nao é o " filho da puta" que me choca, é o "judeu"... Nao parece impossivel? Segunda parte da historia: no mesmo dia a garota, que tem necessariamente entre 10 e 11 anos, é espancada (ou apenas " sacudida", conforme as versoes) por colegas de 7a e 8a séries, pode? E em seguida desaparece do colégio, muda de colégio!

E ainda tem mais: no mesmo colégio, que segundo declaraçao de uma professora ao jornal Libération, tem uma maioria de alunos judeus, dois alunos de origem arabe, do norte da Africa (quer dizer, filhos de marroquinos , tunisianos ou argelinos) sao espancados na porta da escola por rapazes que distribuiam panfletos a favor da posiçao de Israel na faixa de Gaza. Panfletos que eles teriam jogado ostensivamente no lixo... E trata-se de um colégio publico chique, localizado no bairro mais caro de Paris, o XVI, com uma impressionante taxa de aprovaçao no baccalauréat!
Gente! Sempre pensei, no meu angelismo, que o radicalismo de questoes identitarias fosse reflexo da falta de meios de reflexao e, de uma maneira geral, da falta de meios... Quer dizer, que as pessoas prestassem atençao nas proprias origens ( e nas alheias) de maneira exagerada quando o presente estivesse bloqueado e nao se visse o futuro... Como as gangues de italianos, irlandeses ou portorriquenhos em Nova York, por exemplo... ou como nos suburbios franceses de hoje onde, à força de serem humilhados a partir da escola - e ai teriamos materia pra outro post - os "jovens" formaram até um nome pra se auto-designar orgulhosamente: "caillera", que é "racaille" ( gentinha) ao contrario. Existem hoje ética e estética "caillera" como, no Rio, ha ética e estética de favela ( que nao concerne a todos os moradores de favela).
Deus me livre de estar pregando o meio-termo, o bom-senso, o bom-mocismo a respeito dessa guerra. Aqui em casa temos opinioes bem definidas a esse respeito, opiniao que explicamos claramente aos filhos, com o apoio de livros, documentos e mapas. No entanto, explicamos também muito bem a eles que ha espaços onde a manifestaçao da opiniao é util e outros nos quais é imprescindivel que ela se cale em beneficio da convivência. Se houver uma passeata, um abaixo-assinado, uma discussao organizada, a manifestaçao das proprias idéias é desejavel. Em caso contrario, é pura provocaçao. E sobretudo, que politica exterior é coisa para adultos. Adolescentes devem fazer politica la justamente onde ela começa, no nivel micro, na classe, no centro de esportes, no recreio. E isso nao tem nada a ver com discussoes sobre o Oriente Médio.

dimanche 11 janvier 2009

Evocaçao do Gragoata

Nos saiamos todos os dias no fim da tarde. Todas as meninas. Todos os dias. E por volta de quatro e meia da tarde começava o fim da tarde. Os "meninos" voltavam do curso preparatorio à escola militar e se postavam na rua, numa brincadeira ruidosa. Anunciando sua chegada, claro, mas nos, as meninas, nao sabiamos disso. Oficialmente eles se divertiam entre eles, sem nem mesmo olhar pra nos. Oficialmente nos tinhamos terminado os deveres e estavamos conversando entre nos tranquilamente. Na rua, num trecho de rua tranquilo, onde era raro passarem carros. Os " meninos" se exibiam, gritavam, uivavam, riam alto, se empurravam, faziam mil e uma piadas, contavam casos. Nos, "as meninas", riamos, acompanhavamos o show. As vezes havia um ou outro dialogo. Havia o bonitao, por quem todas nos eramos muito pouco secretamente apaixonadas. Havia o intelectual blasé, que bancava o intelectual blasé de 17 anos e queria ser economista quando todos os outros queriam ser oficiais de marinha e o chato agressivo que nao gostava de meninas ( nem de meninos, era o chato total, além de violento). Havia o "garoto" que so tinha quinze anos. Pra esse nenhuma de nos dava bola. Nos ja tinhamos 13 anos, ora. E havia todos os outros entre os 13 e os 17 anos que, sem morarem na rua, vinham rir - era esse o grande programa - no trecho que ocupavamos entre quatro e meia e seis horas, de segunda a quinta-feira. As seis, seis e meia no maximo, todo mundo "entrava". Mesmo porque as maes dos "meninos" zelavam por que seus rebentos estudassem muito à noite. As provas da AMAM, IME e outras misteriosas siglas tinham fama de ser fogo.

E ai eu descobri outra turma, noutra rua. E entao era eu que às quatro e meia atravessava garbosamente o grupo e mudava de rua. Ganhando, claro, fama de "metida". Ia pra casa de minha nova amiga, que ja tinha quinze anos e namorado firme, era uma garota com uma classe enorme, que nao ficava sorrindo feito nos, as idiotas, mas era séria e olhava firme nos olhos das pessoas. Ela ja estava no curso Normal , no Instituto de Educaçao e, junto com uma das irmas do namorado, dava aulas particulares numa varandinha dentro da enorme casa dela. Era alias na casa dela que a coisa se passava. Ela tinha muitos irmaos e primos e todos tinham muitos amigos. Essa turma nao queria ser militar. Os "rapazes" ( "meninos" eram os da minha rua) queriam ser engenheiros ou médicos e faziam também cursinho, claro. E havia os que ja nao estudavam, que tinham concluido o "cientifico" ou o " técnico em contabilidade" e que, por necessidade de familia, ja tinham começado a trabalhar. Mas todo mundo posava de intelectual. Ali se discutia literatura, musica classica, filosofia. Bem, bem, a musica classica vinha a partir dos "classicos para dançar" de Ray Conniff e dos Single Singers. Mas vinha. O namorado de minha amiga comprava os discos com os classicos em questao em sua versao "verdadeira" e nos ficavamos ouvindo, fazendo as caras adequadas à ocasiao. A filosofia era talvez como deve ser mesmo: na raça. O dito namorado de minha amiga comprava um livro de ... digamos Schopenhauer, e começava a ler. Dai o tal livro passava de mao em mao e todo mundo interpretava como podia. Mas na maior circunspecçao. O que nao se podia era bancar o bobo alegre ( Meu pai achava muito engraçado tudo isso. Uma vez chegou em casa me dizendo que tinha encontrado meu amigo filosofo no barbeiro - pois é, no barbeiro - fazendo pose na cadeira com a cara toda ensaboada). Em literatura estavamos em Herman Hesse e os problemas relativos ao bem e ao mal. Pois é.

Desde quinta-feira começava a preparaçao do fim de semana. Onde é a festa? Alias as festas se chamavam bailes. Havia baile toda semana. Na pior das hipoteses, aos domingos havia domingueira no clube. O problema é que minha mae achava que às domingueiras eu so poderia ir depois de completar 15 anos. Mas havia os bailes excepcionais, que eram muitos, com as orquestras especiais. A esses se alguma de nos fosse proibida de ir iria direto ali do lado se enforcar. Baile da Primavera, das Flores, do Verao, do Inverno, de Abertura das Férias, de Encerramento das Férias, de Eleiçao da Rainha do Clube, de despedida da Diretoria que saia, de recepçao da que entrava...

Enfim havia baile, pelo menos um, toda semana. Na maioria das vezes em casa, cada dia na casa de um, quando se chamavam entao " brincadeira". Todos levavam discos. Os convidados levavam também os sanduiches, docinhos de leite condensado, refrigerantes ou material pra fazer cuba-libre ou umas bebidas que eu particularmente achava horrorosas, com leite condensado e sei la qual alcool. Bebidas que, misteriosamente, eram permitidas pelas familias. Por outro lado, ninguém bebia cerveja, que so fui de fato conhecer, na faculdade. As vezes uma familia nao tinha vitrola (pois é, vitrola, daquelas de armario, pesadas), a minha, por exemplo. No problem, os "rapazes" carregavam a vitrola nas costas desde, por exemplo, a casa de minha amiga até a casa onde se fazia a " brincadeira". Por outro lado, na maioria das casas nao havia espaço pra se dançar, entao os moveis tinham de ser tirados da sala e postos no corredor, na area ou na varanda, pra dar espaço.

Saber dançar era muito importante. Todos os ritmos. Havia os especialistas de cada ritmo e havia as que ensaiavam diante do espelho de tarde. Nos bailes e brincadeiras se namorava, claro, mas sobretudo se dançava muito. Literalmente o tempo inteiro, o que quer dizer que o conceito de namoro era muito diferente. A gente namorava enquanto dançava, o que faz toda a diferença. (Bem, tinha a ida e a volta, era entao que a coisa se passava mas o tempo era curto e estavamos sempre em bando. Ou quase sempre ). De modo geral, ficar uma unica musica sem dançar ja era inquietante. O que explica também o fato de que o cuba-libre nao fazia mal a ninguém. Dai a diferença das brincadeiras pros bailes nos clubes, onde havia as varandas tao temidas pelas maes. Um baile pra ser considerado bom tinha de durar até as 3 da manha . Uma festa de 15 anos também Nas casas as maes resistiam até 1h30 mais ou menos. E na manha seguinte quem chegasse às 11 na praia ja chegava tarde, mesmo porque tinhamos de voltar pra casa no maximo às 13.

Dançamos nesse ritmo durante mais ou menos dois anos. Depois todo mundo fez 15 anos e "arranjou namorado firme", outras preocupaçoes e interesses. E ja nao era mais a mesma eletricidade que corria quando chegava a noticia de que Ed Lincoln ou Severino Araujo animaria o baile, o mesmo alvoroço nas tardes de preparaçao, quando o cabelo demorava a secar, o mesmo aperto na boca do estomago quando o Casino de Sevilla dava seus primeiros acordes ou Nat "King" Cole cantava Stardust por entre os chiados da agulha.

E todo mundo estudou e todo mundo terminou o "segundo grau". Dos "meninos", so um conseguiu entrar na Aeronautica: o chato violento. Com ditadura e tudo, ou talvez exatamente por causa dela ele chegou a brigadeiro. Tudo a ver, escrito no destino. Os outros foram reprovados para as carreiras militares. Tornaram-se engenheiros. O que queria ser economista tornou-se economista. Dos "rapazes", uns formaram-se em medicina e pelo que sei, fazem brilhantes carreiras. Outros seguiram caminhos diversos. Todos se casaram, alguns varias vezes. Acho que todos tiveram filhos. Meu amigo mais querido ja olha pra nos a partir das estrelas.

Das meninas, umas casaram uma vez, outras casaram varias vezes, outras nao se casaram. Umas tiveram filhos, outras nao. Tornaram-se psicologa, quimica, nutricionista, arquiteta, economista, sociologa, funcionaria publica, donas de casa, dona de butique, artista plastica, professoras.

Muita agua rolou depois que paramos de dançar. Houve noivados e casamentos, filhos, brigas e reconciliaçoes, traiçoes, separaçoes. Houve mudanças, viagens, carreiras, doenças e mortes. A maioria melhorou de vida, houve os que ficaram ricos, alguns muito ricos, houve os que continuaram pobres. Mudamos, de cara e cabelo, mudamos de olhos e riso. Mas como disse o santo Ferreira Gullar, esse tempo esta comigo, esta, perdido em alguma gaveta.

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Capa de Ronaldo Graça

Interior de Saint Julien le Pauvre

Interior de Saint Julien le Pauvre

Marion e a igreja de Saint Julien le Pauvre

Marion e a igreja de Saint Julien le Pauvre

Barcelona

Barcelona

Barcelona

Barcelona

Museu da Catalunha

Museu da Catalunha

A arvore mais velha de Paris.Jardim de Saint Julien le Pauvre

A arvore mais velha de Paris.Jardim de Saint Julien le Pauvre

Jardim da igreja de Saint Julien le Pauvre

Jardim da igreja de Saint Julien le Pauvre

Igreja da Madeleine

Igreja da Madeleine

Das escadas da Madeleine. Ao fundo, a place Vendôme

Das escadas da Madeleine. Ao fundo, a place Vendôme

Barcelona- Gracia

Barcelona- Gracia

Rue de Bucci

Rue de Bucci

Barcelona

Barcelona

Charitas forever

Charitas forever
Foto de Elias Francioni

Passage Saint Andre des Arts

Passage Saint Andre des Arts

Cartão-postal

Cartão-postal
Foto de Vera Bungarten

Paris...

Paris...
Foto de Vera Bungarten

No centro do Louvre

No centro do Louvre
Foto de Vera Bungarten

Passages de Paris

Passages de Paris
Foto de Vera Bungarten

Livraria Shakeaspeare.Quartier Latin

Livraria Shakeaspeare.Quartier Latin
Foto de Ana Maria Lucena

Quartier Latin

Quartier Latin
50 anos de Ionesco

Tonico Pereira. Teatro da FAAP

Tonico Pereira. Teatro da FAAP

Le Petit Pont e l'Hôtel de Police

Le Petit Pont e l'Hôtel de Police

Feliz Ano Novo ( foto de Patrick Corneau)

Feliz Ano Novo ( foto de Patrick Corneau)
Dança, a esperança equilibrista porque o show de todo artista tem de continuar.

Ilha da Boa Viagem

Ilha da Boa Viagem
Foto de Elias Francioni

Rue de la Huchette. Quartier Latin

Rue de la Huchette. Quartier Latin

Xando Graça

Xando Graça

Pont Saint Michel

Pont Saint Michel

Les Invalides

Les Invalides
Foto de Vera Bungarten

A dama de ferro

A dama de ferro
foto de Ana Lucena

A côté du Beaubourg

A côté du Beaubourg
Foto de Vera Bungarten

Chez Procope

Chez Procope

Igreja de Saint Séverin

Igreja de Saint Séverin

Angulo da igreja de Saint Séverin. Quartier Latin

Angulo da igreja de Saint Séverin. Quartier Latin
(foto Ana Maria Lucena)

Detalhe da Catedral de Notre Dame

Detalhe da Catedral de Notre Dame

Bassin Igor Stravinsk (ao lado do Beaubourg)

Bassin Igor Stravinsk (ao lado do Beaubourg)
Foto de Vera Bungarten

Liceu Henri IV

Liceu Henri IV
foto de Maria do Rosario

Liceu Henri IV. Ao fundo, o Panthéon

Liceu Henri IV. Ao fundo, o Panthéon
foto de Maria do Rosario

Liceu Henri IV

Liceu Henri IV
foto de Maria do Rosario

Liceu Henri IV

Liceu Henri IV
foto de Maria do Rosario

Jardin du Luxembourg

Jardin du Luxembourg

Espetaculo de mimica

Espetaculo de mimica
Jardin du Luxembourg

Rive Gauche

Rive Gauche

Barcelona Arco do Triunfo

Barcelona Arco do Triunfo

Museu de Zoologia e Historia Natural

Museu de Zoologia e Historia Natural

Jardin du Luxembourg

Jardin du Luxembourg
O despertar da primavera